Eu nunca fui muito chegado ao carnaval. Quando criança, minha mãe nos levava às matinês de bailes em Teófilo Otoni. Passei por uma fase de assistir aos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro pela extinta TV Manchete e até comprar discos com os enredos das escolas.
Mais tarde, trabalhei profissionalmente na cobertura de blocos e escolas de samba em Belo Horizonte e Porto Velho, além de bailes e plantões para acompanhar ocorrências atendidas pela polícia e bombeiros nesses dias de festa e exageros.
Em um ano — que não sei precisar qual, mas não vem ao caso agora — acompanhei meu chefe a uma série de reuniões políticas em cidades do interior de Rondônia. Ele quis aproveitar o período de carnaval para se encontrar com pastores e lideranças evangélicas e buscar apoio para futuras pretensões políticas.
Na segunda-feira de carnaval estávamos em Colorado do Oeste, no chamado Cone Sul de Rondônia. Após um dia de visitas e reuniões, fui liberado das atividades junto com outro assessor.
Meu colega, que conhecia a cidade, me convidou para irmos a um baile de carnaval em um clube. Tentei recusar dizendo que estava cansado (verdade) e sem dinheiro (mentira), mas ele insistiu e lá fomos nós.
O lugar era pequeno, quente, cheio de gente, e o cheiro de suor dominava o ambiente. A banda tocava marchinhas em um volume que superava qualquer outro ruído. Conversávamos aos gritos, usando preferencialmente palavras curtas: “Olha!”, “Vamos pra lá!”, “Outra cerveja?”.
Os foliões dançavam em roda pelo salão, todos seguindo no mesmo sentido. Eu me sentia um estranho no ninho. Com uma lata de cerveja na mão, fiquei perto de uma janela para respirar um pouco de ar fresco. Mas o suor escorria e ensopava a camisa, e eu só pensava em ir embora. Meu colega dançava animado, acompanhando as marchinhas sem sair do lugar.
Foi então que, distraído, olhando a multidão, percebi uma jovem fantasiada de havaiana que saiu da roda e ficou na minha frente, dançando com os braços estendidos, como se me convidasse para acompanhá-la.
Eu não reagi. Não sei se a cena durou minutos ou segundos. O que sei é que outra foliã – esta vestida de odalisca -, sem perder o ritmo da música, pegou a havaiana pela cintura e a levou de volta para o meio do salão. Depois disso, não as vi mais.
Na saída, meu colega comentou, como quem tenta me consolar:
— Foi melhor assim. Vai que você arrumava confusão sem querer…
Não respondi nada. Até hoje não entendi direito esse episódio na minha vida.
[Crônica XXXI/2026]

