05 de agosto de 2025

O alpendre vazio

Por José Carlos Sá

Aquele alpendre vazio se enche com a minha imaginação (Imagem gerada por IA Copilot/Microsoft, a partir de uma descrição enviada por mim)

Desde que nos mudamos para São José, em 2019, uma casa passou a chamar minha atenção. Ela fica na esquina de uma das avenidas por onde passamos. É uma casa simples, com um segundo piso onde se destaca uma varanda fechada por paredes de vidro — laterais e frontal.

De fora, é possível ver poltronas (que parecem confortáveis), cortinas, quadros e plantas — não sei se naturais ou artificiais.

Imagino aquele espaço como ideal para ler um livro, ouvir música, jogar conversa fora ou simplesmente não fazer nada disso… e apenas observar os carros passando pela avenida.

E talvez seja justamente por atribuir tantas funções prazerosas ao alpendre que me incomoda vê-lo sempre vazio. Nesses seis anos, toda vez que passo por ali, olho para a casa na esperança de ver alguém desfrutando do espaço da forma que eu faria. Acredito ser um lugar muito agradável.

Mas está sempre vazio. E eu penso: que desperdício.

Já pensei em parar o carro, atravessar a rua e bater no portão. Quando o proprietário viesse atender, eu falaria: 

– Bom dia, vizinho. Desculpe a intromissão, mas eu sempre que passo na avenida vejo o seu alpendre, ali em cima, vazio. Quero lhe fazer uma proposta. Você poderia me emprestar a sua varanda? 

Prometo que não irei incomodar, quero apenas ocupá-la com meus pensamentos. Encher aquela varanda envidraçada com memórias de lugares onde não fui, falsas lembranças e devaneios variados. Depois trabalharei isso tudo escrevendo crônicas que publicarei para ninguém ler.

O que acha da proposta? Vamos fechar negócio? Você não vai se arrepender.

[Crônica CLXXVI/2025] 

Tags

Avenida das Torres Bairro Bela Vista Crônica 

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