
Aquele alpendre vazio se enche com a minha imaginação (Imagem gerada por IA Copilot/Microsoft, a partir de uma descrição enviada por mim)
Desde que nos mudamos para São José, em 2019, uma casa passou a chamar minha atenção. Ela fica na esquina de uma das avenidas por onde passamos. É uma casa simples, com um segundo piso onde se destaca uma varanda fechada por paredes de vidro — laterais e frontal.
De fora, é possível ver poltronas (que parecem confortáveis), cortinas, quadros e plantas — não sei se naturais ou artificiais.
Imagino aquele espaço como ideal para ler um livro, ouvir música, jogar conversa fora ou simplesmente não fazer nada disso… e apenas observar os carros passando pela avenida.
E talvez seja justamente por atribuir tantas funções prazerosas ao alpendre que me incomoda vê-lo sempre vazio. Nesses seis anos, toda vez que passo por ali, olho para a casa na esperança de ver alguém desfrutando do espaço da forma que eu faria. Acredito ser um lugar muito agradável.
Mas está sempre vazio. E eu penso: que desperdício.
Já pensei em parar o carro, atravessar a rua e bater no portão. Quando o proprietário viesse atender, eu falaria:
– Bom dia, vizinho. Desculpe a intromissão, mas eu sempre que passo na avenida vejo o seu alpendre, ali em cima, vazio. Quero lhe fazer uma proposta. Você poderia me emprestar a sua varanda?
Prometo que não irei incomodar, quero apenas ocupá-la com meus pensamentos. Encher aquela varanda envidraçada com memórias de lugares onde não fui, falsas lembranças e devaneios variados. Depois trabalharei isso tudo escrevendo crônicas que publicarei para ninguém ler.
O que acha da proposta? Vamos fechar negócio? Você não vai se arrepender.
[Crônica CLXXVI/2025]
