09 de setembro de 2026

Um número do além – A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

Quase perdendo a cabeça (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot)

Já dei uma prévia deste livro há poucos dias, quando falei do enforcamento que não houve em São José (A forca de Desterro lembrada em São José) e citei o escritor francês Victor Hugo e sua campanha para acabar com a pena de morte na França e em todo o mundo. Hoje concluí o livrinho, que tem pouco menos de 100 páginas, mas é denso e pesado em seu conteúdo, tanto no que está escrito quanto no que se insinua.

O último dia de um condenado à morte (Editora Newton Compton Brasil, Rio de Janeiro, 1993) foi publicado anonimamente em Paris, em 1828, quando a justiça francesa registrou 89 condenações à morte, das quais 68 foram executadas publicamente pela guilhotina. Victor Hugo denuncia a crueldade psicológica que sofrem os condenados no corredor da morte, aguardando a execução.

No prefácio da edição que li, Hugo também aponta os vários pesos e medidas da justiça: uns réus são condenados, outros absolvidos, mesmo acusados de crimes semelhantes — a diferença está no dinheiro e no prestígio que alguns têm, e outros não.

Na França do século XIX vigorava o Código Penal Napoleônico, de 1810, que previa a pena de morte para homicídio intencional, parricídio (neste caso, o condenado tinha a mão direita amputada antes da decapitação), infanticídio, envenenamento, roubo com violência grave (o latrocínio), além dos crimes contra o Estado, a Propriedade e a Ordem Social. A pena de morte seria abolida em 1870.

O livro, escrito em primeira pessoa, mostra a trajetória de um condenado desde a leitura da sentença até a hora marcada para a execução — um período de seis meses, tempo em que ainda cabiam recursos e, quem sabe, uma “Carta de Graça” do rei perdoando o sentenciado.

No meio da tragédia, enquanto o réu pensa na família — mãe, esposa e filha — e relembra fatos da vida, surge um carcereiro com uma proposta quase cômica para a situação: pede que o condenado, depois de morto, “volte” e lhe diga dois números que seriam sorteados na loteria. O policial penal justificava: “o serviço é pesado e o soldo é leve”.

O condenado, mesmo considerando a proposta injuriosa, aceita se o carcereiro topar trocar de roupas e, assim, ser ele quem forneceria os números. A contraproposta chega a ser cogitada, mas logo o gendarme percebe a real intenção do sentenciado: “Será? Não é para sair daqui, é?”, pergunta o ingênuo. “Para serem bons, o senhor tem que estar morto.” E assim termina, sem acordo, a tentativa de ambos lucrarem.

Gostei do livro e recomendo. Em tempos de campanha eleitoral em que ainda se repete o bordão ‘bandido bom é bandido morto’, Victor Hugo parece rir do além: se fosse assim tão simples, bastava pedir ao condenado que trouxesse também os números da loteria. Justiça e sorte, afinal, seriam a mesma coisa. 

[Resenha XXIII/2026]

Tags

Código Penal Napoleônico França Guilhotina Pena de morte Victor Hugo 

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