Já dei uma prévia deste livro há poucos dias, quando falei do enforcamento que não houve em São José (A forca de Desterro lembrada em São José) e citei o escritor francês Victor Hugo e sua campanha para acabar com a pena de morte na França e em todo o mundo. Hoje concluí o livrinho, que tem pouco menos de 100 páginas, mas é denso e pesado em seu conteúdo, tanto no que está escrito quanto no que se insinua.
O último dia de um condenado à morte (Editora Newton Compton Brasil, Rio de Janeiro, 1993) foi publicado anonimamente em Paris, em 1828, quando a justiça francesa registrou 89 condenações à morte, das quais 68 foram executadas publicamente pela guilhotina. Victor Hugo denuncia a crueldade psicológica que sofrem os condenados no corredor da morte, aguardando a execução.
No prefácio da edição que li, Hugo também aponta os vários pesos e medidas da justiça: uns réus são condenados, outros absolvidos, mesmo acusados de crimes semelhantes — a diferença está no dinheiro e no prestígio que alguns têm, e outros não.
Na França do século XIX vigorava o Código Penal Napoleônico, de 1810, que previa a pena de morte para homicídio intencional, parricídio (neste caso, o condenado tinha a mão direita amputada antes da decapitação), infanticídio, envenenamento, roubo com violência grave (o latrocínio), além dos crimes contra o Estado, a Propriedade e a Ordem Social. A pena de morte seria abolida em 1870.
O livro, escrito em primeira pessoa, mostra a trajetória de um condenado desde a leitura da sentença até a hora marcada para a execução — um período de seis meses, tempo em que ainda cabiam recursos e, quem sabe, uma “Carta de Graça” do rei perdoando o sentenciado.
No meio da tragédia, enquanto o réu pensa na família — mãe, esposa e filha — e relembra fatos da vida, surge um carcereiro com uma proposta quase cômica para a situação: pede que o condenado, depois de morto, “volte” e lhe diga dois números que seriam sorteados na loteria. O policial penal justificava: “o serviço é pesado e o soldo é leve”.
O condenado, mesmo considerando a proposta injuriosa, aceita se o carcereiro topar trocar de roupas e, assim, ser ele quem forneceria os números. A contraproposta chega a ser cogitada, mas logo o gendarme percebe a real intenção do sentenciado: “Será? Não é para sair daqui, é?”, pergunta o ingênuo. “Para serem bons, o senhor tem que estar morto.” E assim termina, sem acordo, a tentativa de ambos lucrarem.
Gostei do livro e recomendo. Em tempos de campanha eleitoral em que ainda se repete o bordão ‘bandido bom é bandido morto’, Victor Hugo parece rir do além: se fosse assim tão simples, bastava pedir ao condenado que trouxesse também os números da loteria. Justiça e sorte, afinal, seriam a mesma coisa.
[Resenha XXIII/2026]

