02 de setembro de 2026

A forca de Desterro, lembrada em São José

Por José Carlos Sá

O carrasco ficou ocioso com a morte prematura do réu (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt e edição JCarlos)

Estou lendo o livro O último dia de um condenado à morte, do escritor francês Victor Hugo (Newton Compton Brasil, Rio de Janeiro, 1993). Concluí apenas o extenso prefácio de dezesseis páginas, onde o autor defende, com muitos e bons argumentos e exemplos, a suspensão da pena de morte no mundo todo e, em especial, na França.

Numa convergência de ideias e pensamentos, encontrei na pesquisa que estou fazendo sobre figuras josefenses ilustres uma passagem sobre o último condenado à morte em São José.

No material reunido pelo historiador Álvaro Tolentino de Souza, datilografado e encadernado com o título “I – Efemérides Josefenses, II – Notícia estatístico-descritiva do Município de São José e III – Notas para a História Josefense”, encontrei esta referência:

“Neste ano de 1843, existia forca levantada ao lado Norte da matriz e nesse mesmo ano foi levado ao patíbulo réu de morte. O poviléu [população] foi convidado por edital para assistir os últimos momentos do condenado e assim as autoridades locais. O réu, de alva, tendo ao lado o vigário da paróquia, padre Manoel José Bruchado [sic], desfaleceu antes do suplício. Grande foi o pânico que a todos deixou aterrado. Esse tétrico espetáculo ficou por muito tempo gravado na memória daqueles que o assistiram. Foi o último condenado que pereceu na forca, pois essa depois desapareceu (Relatos de velhos contemporâneos da época).”

Desviei da minha pesquisa principal e fui apurar mais sobre esse incidente. Encontrei o nome do réu: Manoel de Souza, possivelmente condenado à morte por homicídio qualificado.

Mas o fato — diferente do que nos conta Álvaro Tolentino de Souza — não foi em São José. Aconteceu na Vila de Nossa Senhora do Desterro, do outro lado da Baía Sul, na Ilha de Santa Catarina, no largo da Matriz, na atual Praça XV de Novembro.

Consta que Manoel de Souza subiu ao patíbulo cercado pelo ritual fúnebre tradicional da época. No entanto, tomado por um pânico extremo ou por um colapso cardíaco fulminante provocado pelo terror iminente da execução, ele desfaleceu e morreu de causas naturais em cima do próprio patíbulo, instantes antes de o carrasco ajustar a corda em seu pescoço ou acionar o alçapão, segundo a Revista Cult.

Na época, o fato provocou consternação pública, que atribuía a morte “antes da hora” a uma intervenção divina, pois o réu podia ser inocente dos crimes que lhe eram imputados e já era hora de rediscutir a pena de morte.

O episódio serviu para que a forca fosse desmontada, e outras execuções só voltariam a acontecer no pós-Revolta Federalista. Mas essa é uma outra e triste história.

[Crônica CCV/2026]

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Álvaro Tolentino de Souza Desterro Florianópolis Pena de morte São José Victor Hugo 

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