Ele chegou a São José quando ainda era apenas Vila, em março de 1851, para assumir como vigário. Permaneceu no cargo até 1862, testemunhando o crescimento populacional e econômico que culminou na elevação do lugar à categoria de cidade — tudo sob sua gestão espiritual.
A passagem do padre Macário por São José ficou marcada por episódios que, com o tempo, ganharam feição de folclore. Hoje, ao conhecermos essas histórias, é natural duvidar da veracidade dos fatos.
Em 1853, mandou construir a casa paroquial, escolhendo um local de onde pudesse admirar a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. O templo foi projetado e erguido por iniciativa dele, com apoio dos devotos, e concluído em 1852. A imagem do Bonfim, trazida da Bahia, também foi adquirida pelo próprio vigário.
O segundo episódio foi a célebre praga contra a futura Igreja de Nosso Senhor dos Passos. Houve desentendimento entre a comissão responsável pela obra e o vigário Macário César d’Alexandria e Souza, quanto ao local da construção:
“(…) Era o vigário de opinião, com voto do coronel Ferreira de Melo, que se escolhesse um ponto elevado da Rua do Fogo (…) para a construção da capela, discrepando dos demais, que aviltraram fosse ela erigida no local onde presentemente se eleva. Vingando a opinião da maioria, iniciou-se a construção, porém o vigário, picado com o desprestígio, anatematizou-a do alto do púlpito, vaticinando que a capela seria começada, porém, nunca terminada!!! (…)”
(Santa Catarina Filatélica, edição especial comemorativa ao bicentenário da fundação de São José, março de 1950).
Apesar da maldição, a Igreja de Nosso Senhor dos Passos completou, em fevereiro, 162 anos de fundação.
A inauguração do templo recebeu a bênção do padre e arcipreste Joaquim Gomes d’Oliveira e Paiva — o que pode ter desgostado Macário (conclusão minha) e originado a terceira treta, já narrada aqui, mas que vale repetir:
“Outro episódio narrado, em tom quase de fofoca, foi a rixa entre padres durante os festejos pela elevação de São José de Vila à categoria de cidade. O vigário de Desterro, padre Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva, estava escalado para o sermão da missa solene. Mas o vigário local, padre Macário Cesar de Alexandria, não aceitou que um ‘padre de fora’ ocupasse o púlpito. A disputa virou escândalo: quando Macário finalmente entregou a chave, Paiva se recusou a pregar. No fim, Paiva fez apenas uma oração na Câmara de Vereadores, enquanto Macário cantou o Te Deum sozinho — sem vereadores e sem povo.”
Quem foi?
Macário César d’Alexandria e Souza nasceu em Salvador, em 27 de novembro de 1793, e foi ordenado padre em 1848, no Rio de Janeiro. Atuou como vigário em Tijucas e Porto Belo antes de chegar a São José. Também foi pároco da Capela de Nosso Senhor do Bonfim, vigário de São Pedro de Alcântara, vigário interino da Ilha de Santa Catarina, comissário da Ordem Terceira do Desterro, arcipreste interino e depois titular da Província de Santa Catarina.
No mundo profano, foi deputado para a Assembleia Legislativa Provincial de Santa Catarina, eleito em 1º de agosto de 1857. Assumiu como suplente na 13ª Legislatura (1860-1861), quando também era responsável pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Enseada de Brito. Mais tarde, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde morreu aos 92 anos.
Em sua homenagem, restou apenas uma rua com seu nome, no Centro Histórico de São José — menos de 200 metros de extensão, ligando a Igreja Matriz à Capela do Senhor do Bonfim, obra que ele mesmo idealizou.
Mas, ironicamente, quase ninguém sabe quem foi o padre Macário.
[Crônica CCVI/2026]

