Cresci conservando os costumes adquiridos na infância, entre eles o hábito de pedir a bênção aos meus pais. Meus filhos e sobrinhos pedem a minha bênção, numa continuidade que já está se esgotando, pois os valores que, para os de minha geração e religião, eram importantes, já não têm a mesma relevância.
A bênção, na minha opinião, não é apenas um cumprimento automático, como um “bom dia” ou “como vai você”, mas um desejo sincero. Ao dizer “que Deus te abençoe”, estou desejando que Ele conceda saúde e felicidade à pessoa que abençoo.
Na infância — sempre repito esse detalhe — fui criado na casa das avós paternas. Eram três irmãs e um irmão que criaram meu pai, e eu passava a maior parte da semana lá, pois meus pais trabalhavam fora e eu tinha dois irmãos mais novos.
Eu tomava bênção às três “avós”, mas fui dispensado de pedir bênção a Zizinho, meu tio-avô, adepto das Testemunhas de Jeová, denominação que não adotava esse rito.
Sempre ouvi dos meus pais que, quando eram crianças, deviam tomar a bênção dos padrinhos e das pessoas mais velhas, mesmo que desconhecidas. Contavam que o não-pedido de bênção poderia acarretar castigo ou até uma surra, por demonstrar falta de educação e respeito aos idosos.
Há poucos dias, conversando sobre esse assunto com uma colega, eu falava desse costume familiar de pedir a bênção aos pais e padrinhos. Ele contou, rindo, que na família dele apenas o pai faz questão de abençoar os filhos.
— Meu pai, que tem 88 anos, sempre cobra o pedido de bênção. A gente fala “bom dia, pai” e ele responde: “Não ouvi o ‘bença, pai’…” Aí temos que repetir: “Benção, pai. Bom dia!” E ele, sorrindo, fala: “Bom dia, filho, que Deus te abençoe.” Às vezes, na pressa, eu ligo para ele para pedir uma informação e esqueço da bênção; ele faz eu pedir a bendita bença antes de responder.
Ele contou que já foi pior:
— A gente acordava atrasado para ir à aula, passava por ele correndo para tomar café, e ele virava a mão. Geralmente acertava na minha cabeça, e eu ficava zonzo. “Não vai tomar bênção, não, seu Gilberto? Você não reconhece seu pai, não, vagabundo?” E eu tinha que pedir bênção, ainda com a cabeça rodando do tapa. Hoje, já telefono para ele e falo “benção” em lugar de “alô” ou “bom dia”.
Até a adolescência, eu achava estranho ver meus colegas não pedindo bênção aos pais e avós. Depois me acostumei. Hoje, ao contrário, acho estranho quando vejo que algumas famílias ainda conservam esse costume.
É mais um sinal de que tudo muda e que, no fim das contas, a bênção compulsória virou apenas mais uma tradição que hoje rende boas histórias e uns tapas na memória..
[Crônica CXXXVIII/2026]

