
Um presente de natal que ninguém quer ganhar (Imagem gerada pelo assistente IAgo Copilot/Montagem JCarlos)
O casal era querido por todos. Fazia festas em casa com frequência, recebia familiares e amigos com cordialidade, e deixava sempre a pergunta no ar: “Quando será o próximo evento?”.
Também eram presença constante nas festas do Divino Espírito Santo, nas celebrações da padroeira do bairro e em todas as campanhas de arrecadação para flagelados, no Brasil ou no exterior. O engajamento social deles servia de exemplo quando se convocavam voluntários para qualquer causa.
Não tinham filhos, e muitos acreditavam que essa era a razão de tanta dedicação às iniciativas comunitárias.
Mas, dentro de casa, a história era outra. Brigavam por qualquer motivo. Uma palavra dita em tom errado já bastava para desencadear discussões intermináveis. Quando ele bebia além da conta, a coisa ficava séria: do bate-boca passava ao bate na boca, com agressões físicas cada vez mais severas.
Ela dependia financeiramente dele e, por isso, apanhava e mantinha a vida de aparências. Quando os hematomas ficavam visíveis no rosto, nos braços ou nas pernas, recolhia-se até que desaparecessem.
Na véspera do último Natal, discutiram feio por uma bobagem. Mas tinham compromisso: distribuir brinquedos às crianças da periferia, vestidos de Papai Noel e Mamãe Noel. Antes de sair, ele ameaçou:
– Não te bato agora porque temos esse compromisso, mas quando voltar, você já sabe.
– Você não vai bater mais em mim. Eu cansei.
– Veremos.
Saíram na caminhonete e cumpriram a tarefa com sorrisos, abraços e “Feliz Natal” para todos. Voltaram ao anoitecer. Ele foi direto ao armário da bebida, serviu-se de uma dose dupla de uísque. Ela, na cozinha, preparava um sanduíche.
Sem dizer nada, aproximou-se já tirando a fivela do cinto. Quando levantou a mão para bater, a mulher cravou-lhe no peito a faca com que cortava a mortadela.
O golpe foi fatal. Acertou o coração. Ele caiu no chão, estrebuchando, ainda com a faca cravada.
Ela pegou o celular e chamou a polícia. Agora aguarda julgamento por homicídio, enquanto os que conheciam o casal ainda não se recuperaram do choque diante do desfecho de um casamento que parecia perfeito.
[Crônica CXXVII/2026]
