
Quando o freguês pede carburador de Fusca na banca de bananas, o resultado é explosivo (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Seu Zé Caiota mora no bairro desde antes de ali virar bairro. Muito antes do governo levantar um conjunto habitacional e despejar gente de todo canto — até de outros estados — acabando com a vidinha sossegada daquele pedaço da cidade, onde o amanhecer era marcado pelo canto dos galos, dos joão-de-barro e dos quero-quero.
Caiota nasceu ali mesmo, aparado pela comadre Dorvalina, que o pai trouxe na garupa do cavalo. Cresceu na lida dura da roça e ficou “xucro”. Como ele mesmo diz, as mudanças ao redor só o deixaram mais ressabiado e arisco.
Hoje, o velho Caiota mantém uma barraquinha de madeira onde vende bananas colhidas no que restou do seu sítio, engolido pela cidade. O comércio dele — se é que dá pra chamar assim — fica ao lado de um órgão municipal. E nenhum fiscal, por mais zeloso que fosse, ousava mexer com ele.
Quase todo mundo respeita o seu Zé Caiota. Os meninos nem se atrevem a fazer troça, porque o velho tem boa pontaria e acerta moleque longe com bananas podres, arremessadas com precisão olímpica.
O “quase” do parágrafo anterior é dedicado ao barbeiro. Bidinho, filho do seu Alcebíades — primeiro barbeiro do bairro — herdou não só o nome, mas também a profissão. Vizinho da barraca do Caiota, quando não está cortando cabelo, passa o tempo inventando pegadinhas para irritar o já irritado vendedor de bananas.
Sempre que algum cliente comenta que precisa de alguma coisa — seja uma peça de carro ou moto, seja uma folha para chá — Bidinho indica a barraca do seu Zé e recomenda:
“Fala que foi o barbeiro quem mandou!”
O freguês vai, inocente, até a banca:
— Bom dia!
— Bom dia!
— O senhor tem giclê de carburador de Fusca? O barbeiro disse que o senhor vende!
— Não tenho, meu senhor. Eu só vendo bananas. Agora, aquele barbeiro é um grande filho de rapariga e não nasceu, foi cuspido…
Sem graça, o freguês pede desculpas e volta ao barbeiro para reclamar do carão. O cínico responde rindo:
— É porque o velho não conhece o senhor. Pensa que é polícia querendo prender ele. O senhor desculpe, ele já está variando… — e faz o gesto do dedo girando ao lado da cabeça.
Logo depois, Bidinho manda outro cliente atrás de uma câmara de ar de caminhão pra fazer boia,consertar muleta, alugar máquina de desentortar arame ou até quem queira comprar um FIAT 147 seminovo.
Uma brincadeira em que seu Zé Caiota quase bateu no gaiato lembra as piadas do falecido humorista Costinha:
– Seu Zé, estou com uma dúvida sobre o plantio e o barbeiro disse que o senhor entende de agricultura…
– Vivi minha vida toda da roça, respondeu Caiota orgulhoso.
– Qual a melhor lua para plantar mandioca?
– É a lua da sua mãe e da mãe do barbeiro! Me respeite seu cachorro!
O bananeiro ameaçou sair da barraca e o cara correu, rindo, indo contar ao barbeiro a reação do velho.
A briga entre o bananeiro e o barbeiro é só de fachada, pra quem olha de fora achar que é coisa séria. Uma vez por mês, seu Zé Caiota leva um balaio de bananas, laranjas, couves ou o que estiver na época. Em troca, Bidinho corta o cabelo e apara a barba de graça.
É a famosa relação ioiô: os dois se odeiam e se amam.
[Crônica CVII/2026]
