10 de maio de 2026

O crime dos seiscentos mil réis

Por José Carlos Sá

A morte seria registrada como natural, mas… (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

O sargento Andrade recebeu o comunicado da morte do velho Minervino e enviou dois soldados para verificar o ocorrido. Afinal, apesar dos 90 anos, o homem era um vigor de saúde e ainda domava cavalos bravos.

A filha, Dalgisa, contou que estranhou quando o pai não apareceu após os dez minutos de cochilo que tirava todos os dias depois do almoço. Ao chamá-lo, encontrou-o virado para a parede, imóvel.

— Pai, tá tudo bem? — perguntou.

Sem resposta, virou-o e viu os olhos abertos, já sem vida. Gritou por ajuda, mas sabia que nada mais poderia ser feito.

Os policiais ouviram os familiares presentes, que murmuravam que estavam perdendo tempo: “morte de velho é coisa natural”. Não entendiam por que o sargento os fizera viajar setenta quilômetros até a fazenda.

O médico, igualmente contrariado, chegou tarde e já preenchia o formulário com “causas naturais” quando Pedrinho, encarregado de preparar o corpo para o velório, notou um pequeno buraco na nuca do falecido. O detalhe, até então imperceptível, mudou o rumo da história.

O médico examinou e concluiu que se tratava de um ferimento perfuro-penetrante, sem hemorragia visível. O corpo teria de ser levado ao IML para autópsia.

Chamados de volta, os PMs iniciaram os interrogatórios, liderados pelo soldado Tonho Bueno — o mais experiente e com curso de detetive particular. Souberam que Minervino sempre falava dos 600 mil réis de indenização pelas terras que a Prefeitura lhe tomara, mas ninguém sabia se já havia recebido o dinheiro.

Tonho concluiu, depois do célere inquérito, que Fidelcino, o mais endividado da família, teria pedido dinheiro ao velho. Diante da recusa, o teria matado com uma sovela para consertar arreios e selas. 

Sem outra explicação plausível, Fidelcino — que cuidava dos porcos — foi preso. Amarraram-lhe mãos e pés e o colocaram num carro de boi, já que a viatura, um jipe 1956, estava abarrotada de “presentes” recebidos pelos militares: galinhas, bananas, abóboras, mandiocas e duas sacas de milho.

Na cadeia, Fidelcino apanhou para confessar, mas manteve-se firme na inocência. Condenado a dez anos, enlouqueceu na prisão. 

Anos depois, a família descobriu que o verdadeiro autor fora Pedrinho, o mesmo que apontara o ferimento. Ele acabou morto e enterrado no fundo da fazenda. O caso nunca mais foi comentado. 

[Crônica XCIII/2026]

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600 mil réis Crônica Ficção Minervino Polícia 

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