
Teria sido uma alucinação o que vi na enfermaria da UPA? (Imagem criada por IAgo Copilot sobre foto e prompt JCarlos)
Por causa de uma alergia medicamentosa, que deixou minha pele enrugada como a de um sapo cururu e os olhos saltados como os do lêmure Mort, de Madagascar, fui parar na UPA, chegando lá no início da madrugada.
Após a triagem e a consulta, colocaram-me na enfermaria para receber os antídotos: duas injeções nas pernas e um soro com outro medicamento. A soma dessa química — somada às reações alérgicas que eu já carregava — deixou-me em um estado de torpor, em que não sabia se estava dormindo ou acordado.
A enfermaria estava vazia. Com as luzes acesas, o silêncio era quase total, quebrado apenas pelo rumor distante das conversas do pessoal de plantão no corredor. À minha frente, cinco camas desocupadas, cada uma com seus monitores ligados, luzinhas verdes piscando, como se esperassem pacientes que não vinham.
Foi então que o som me acordou: um “bip-bip-bip” agudo, insistente. Abri os olhos e vi um homem magro, deitado no leito 2. Tubos, fios, máscara. O monitor desenhava linhas verdes e vermelhas, como se registrasse não apenas sua respiração, mas também o ritmo secreto da noite. Eu o ouvia respirar com esforço, como se cada sopro fosse uma batalha.
De repente, a enfermaria se encheu de gente. Médicos e enfermeiros cercaram o homem, falando todos ao mesmo tempo. Eu via apenas suas costas se movendo com rapidez, mas de forma atrapalhada: esbarravam uns nos outros, pareciam discutir mais entre si do que atender ao paciente — que eu supunha ser o centro daquela agitação.
Durou pouco. Depois, silêncio outra vez. Dois homens trouxeram uma maca, desligaram os aparelhos, retiraram o soro. Levaram o paciente embora.
Será que o homem morreu ali, diante de mim? O que teria acontecido? Eu me perguntava, enquanto o instinto de jornalista que ainda não se aposentou lamentava ter perdido o fio do acontecimento — talvez por estar dormindo, ou desmaiado.
Passei muito tempo remoendo aquilo. Horas depois, a enfermeira do plantão da manhã entrou para me dar alta. Perguntei sobre o homem.
— Hein? Que homem?
Expliquei que tinha visto o corre-corre, o paciente no leito 2 sendo levado de maca.
A enfermeira me olhou com espanto:
— O senhor deve ter sonhado. Veja aqui — mostrou-me o formulário, onde constava apenas meu nome, a hora da internação e os medicamentos aplicados. — Ninguém, além do senhor, esteve na enfermaria durante a madrugada.
Quem fez cara de espanto, então, fui eu. Mas saí sem procurar entender.
Podia ser uma coisa, podia ser outra. Talvez não fosse nada.
Fiquei sem saber.
[Crônica LXVI/2026]
