Belmiro Calango estava prestes a entregar uma das casas mais bonitas do bairro. Foram treze meses de trabalho, revestimento em freijó (Cordia goeldiana) reluzindo entre o dourado e o castanho claro, madeiras nobres na estrutura e nos detalhes aparentes. Só faltava o verniz para realçar ainda mais a beleza.
Com os últimos equipamentos hidráulicos e elétricos instalados, restava apenas o acabamento. A sala, a cozinha e os quartos já iam sendo mobiliados conforme cada cômodo ficava pronto.
No intervalo do almoço, os trabalhadores da equipe de Calango admiravam a obra:
— Quando estiver tudo pronto, vou tirar uma foto e postar no Instagram…
— A casa não é sua!
— Mas eu ajudei a fazer. Vai pro currículo…
Na véspera da entrega, começaram a limpeza pelo sótão, recolhendo pedaços de isopor, papelão, canos de PVC, aparas de madeira, cabos e todo tipo de sobra. A ordem de Belmiro era clara: juntar tudo num só lugar, pois a caçamba só chegaria à tarde.
Foi então que Pedrinho Fala Fina acendeu um cigarro, soprou o fósforo e o lançou sobre o monte de lixo, antes de se dirigir ao banheiro químico.
A chama não se apagou. Caiu sobre um pedaço de plástico e, aos poucos, o fogo cresceu. Como se o diabo rondasse por ali — não tenho dúvidas disso — o vento soprou as chamas em direção à casa. Fagulhas encontraram combustível e, em instantes, o incêndio estava fora de controle.
Ninguém percebeu a tempo. Baldes de água e mangueiras de jardim não deram conta. Quando os bombeiros chegaram, só restava avaliar os danos.
A casa não tinha seguro. E a MEI de Belmiro Calango registrava como “capital social” apenas R$1,00.
Foi nesse momento que todos compreenderam o perigo de uma prática tão comum nos canteiros de obra: queimar restos de construção para “limpar” o terreno. Um hábito aparentemente inofensivo, mas que pode transformar meses de trabalho em cinzas.
[Crônica LX/2026]

