Destrancou a porta e a deixou aberta. Voltou ao carro, retirou uma botija de gás do porta-malas e, com dificuldade, a levou para dentro da casa.
Ao acender a luz, percebeu algo estranho. A sala não estava apenas arrumada de forma diferente: os móveis eram outros, a decoração também. O quadro da Santa Ceia já não ocupava a parede em frente à porta, nem a natureza morta enfeitava o corredor que levava à cozinha. Até o cheiro da casa parecia outro.
Deixou o botijão no meio da sala, agora coberta por um tapete amarelo — e ele detestava a cor amarela. O conjunto de estofados parecia novo, recém-comprado. Foi até a cozinha: nada lembrava o ambiente antigo. A prateleira de madeira com panelas de alumínio havia sumido, assim como o fogão carcomido pelo tempo. No lugar, móveis modulares, feitos sob encomenda, e uma geladeira enorme, daquelas que seu salário não permitiria comprar nem a prestação.
Voltou à sala e saiu à varanda, para se certificar de que estava na casa certa. Na parede, a placa esmaltada azul e branca confirmava: número 221. Era ali mesmo. Mas o que estava errado?
Vasculhou os outros cômodos. A disposição física dos quartos e banheiros era a mesma, mas nada estava igual ao que deixara antes de sair para comprar gás. Nem esposa, nem filha. No quarto do casal, a velha penteadeira de espelho oval dera lugar a um móvel metálico, com espelho rodeado de lâmpadas. Sobre a mesa, uma infinidade de frascos, estojos, pincéis e objetos cuja função desconhecia.
No quarto da filha, montaram uma verdadeira academia: bicicleta, esteira, halteres de diversos tamanhos e pesos.
De volta à sala, sentou-se no sofá e procurou com os olhos o móvel onde guardava suas bebidas. Não estava mais lá. Nem as garrafas de uísque ou vodka. Apenas uma garrafa de amarula pela metade. Levantou, pegou-a, colocou o gargalo na boca e provou. Não gostou. Limpou a boca com a mão, tampou e devolveu ao lugar.
Quando ia se sentar novamente, uma mulher surgiu na porta. Espantada, olhava para ele e para o botijão de gás no meio da sala, sobre o tapete amarelo.
— Quem é o senhor? O que está fazendo na minha casa? Como entrou aqui?
— Eu é que pergunto: quem é a senhora e o que está fazendo na minha casa? Que móveis são esses? — disse, apontando ao redor.
A mulher permaneceu imóvel, sem saber se corria e gritava por socorro ou se entrava de vez. Não se sentindo ameaçada, deu um passo para dentro e respondeu:
— Moro aqui há seis meses. Aluguei a casa na imobiliária. Os vizinhos disseram que as antigas moradoras se mudaram para outra cidade depois que o marido desapareceu, justamente quando saiu para comprar gás. A polícia investigou durante um ano. Depois, deram o homem como morto e foram para a casa dos pais da mulher.
Com expressão de quem não entendia nada, o homem olhou para o botijão e murmurou:
— É… eu lembro que saí para buscar o gás para terminar o almoço…
[Crônica LII/2026]

