Minhas primeiras professoras do Curso Primário — dona Delfina, no 1º ano, e dona Maria Helena, no 2º — despertaram em mim um cientista que parecia estar dormindo. Depois, outros professores também me incentivaram a brincar de descobertas em casa, como se eu tivesse um laboratório próprio.
Eram coisas simples, mas eu as realizava com toda a seriedade, como se estivesse no laboratório do próprio Einstein (desculpe, mestre!).
Lembro da famosa “Experiência do Feijão”: colocar algodão molhado no fundo do copo, adicionar alguns grãos e esperar, regando todos os dias, até ver a mágica da germinação: Que alegria ver o feijãozinho acordar e virar planta.
Ou da descoberta de que óleo e água não se misturam — para desgosto da cozinheira, que ficava com copos engordurados. Ainda ali na cozinha, fiz também a experiência do ciclo da água: coloquei um prato sobre a chaleira fervendo e observei as gotinhas se formando. Essa, precisei fazer sob a supervisão da babá da minha irmã, porque eu tinha fama (injusta!) de estabanado.
Mas houve uma experiência que não terminou como eu esperava.
Na nossa casa, meu pai construiu uma espécie de arquibancada de madeira para as plantas de mãe. Em cada degrau, flores e folhas se espalhavam: margaridas, cactos, lírios, violetas, antúrios, espadas de São Jorge, costelas-de-Adão… um jardim suspenso cheio de vida.
Foi ali que decidi observar outra maravilha: a metamorfose dos sapos. A professora havia desenhado no quadro cada etapa, e eu achei essa palavra — “metamorfose” — simplesmente mágica.
Depois do almoço, peguei um vidro de maionese vazio e fui até o córrego próximo. Onde havia espuma sobre a água, recolhi uma amostra: eram os ovos deixados pela dona Sapa. Transferi tudo para uma lata de manteiga e coloquei no meio das plantas, meu laboratório secreto.
Todas as manhãs, antes da escola, eu corria até lá. Anotava no caderno especial cada mudança: os ovos escurecendo, crescendo, virando larvas… até que surgiram os girinos, nadando felizes na água que eu renovava diariamente.
Estava quase na hora de virarem sapinhos. Mas, depois de um fim de semana em acampamento escoteiro, voltei e… surpresa! A lata estava vazia. Só água. Nenhum sapo.
Acusei minha mãe de sabotar o experimento, mas ela jurou que não: tinha medo de sapos e nunca chegava perto da minha “lata-laboratório”.
Fiquei triste alguns dias, até perceber, relendo minhas anotações, que os próprios sapinhos tinham fugido. Ganharam pernas, aproveitaram a vegetação e seguiram para viver suas aventuras.
Perdoei minha mãe e aprendi uma lição: os sapos, assim como nós, também querem sair da casa dos “pais” e conhecer o mundo.
E foi assim que meu experimento inconcluso virou descoberta: a fuga dos sapos.
[Crônica LI/2026]

