A Record News exibiu uma reportagem mostrando o óbvio: a facilidade com que se compram fardamentos e acessórios da Polícia Militar de São Paulo em lojas comuns — nada de esconderijos, senhas secretas ou encontros em porões mal iluminados.
O produtor saiu de lá com colete escrito “Polícia Militar”, giroflex e sirene. Pacote completo. Filmou também, escondido, uniformes com brasão oficial. Venda livre. Documento? Autorização? Nem pensar.
Depois vieram os exemplos: assaltos, golpes, crimes cometidos por falsos policiais. A farda engana. O símbolo convence. A vítima acredita.
Há algumas décadas — certamente mais de 50 anos — a situação era bem diferente. Se um civil fosse flagrado usando qualquer peça de uniforme das forças armadas ou auxiliares, era preso na hora. Além da detenção, levava um “sacode” para revelar onde havia conseguido a farda e ficava alguns dias atrás das grades.
Quem servia ao Exército, à Marinha ou à Aeronáutica tinha obrigação de devolver todo o uniforme ao fim do serviço. Guardar uma simples tarjeta de identificação já era considerado furto qualificado. Ainda assim, o mercado negro lucrava com túnicas e coturnos desviados dos quartéis.
Na virada dos anos 1960 para 1970, começaram a chegar ao Brasil imagens dos Estados Unidos mostrando veteranos da Guerra do Vietnã usando uniformes em protestos e no Festival de Woodstock. Por aqui, a moda demorou a “pegar” justamente pela rigidez das regras.
Lembro de um episódio, quando eu estava na Aeronáutica, fazendo curso no Rio de Janeiro. Uma patrulha da Base Aérea de Santa Cruz, onde eu servia, foi designada para uma operação em Campo Grande, bairro vizinho ao quartel. Lá, encontraram uma loja vendendo peças do uniforme da FAB: gandolas e calças do “7º B”, confeccionadas em brim azul baratéia, como descrito no RUMAer (Regulamento de Uniformes da Aeronáutica).
Durante o interrogatório, o comerciante alegou que havia comprado legalmente da fábrica e não sabia que se tratava de uniforme militar. A investigação chegou até a empresa fornecedora, que explicou ter produzido um lote para a Base Aérea. Como a encomenda foi cancelada, revenderam as peças para não ficar no prejuízo.
Não sei como terminou. Só sei que farda abre portas. Dá poder. Dá autoridade. E malandro não perde a chance de vestir esse disfarce.
[Crônica XXIX/2026]

