08 de fevereiro de 2026

Rapé, Rússia e outras viagens nasais

Por José Carlos Sá

– Entre a economia global e o pó amazônico – 

Essa crônica nasceu de um mal-entendido. Achei que tinha ouvido, numa matéria sobre comércio Brasil-Rússia, que o rapé era um dos produtos brasileiros exportados para os russos.

Caixa de rapé – Paris, França – 1755/1756 – Cravejada de diamantes, esmeraldas, ouro e prata (Foto Museu do Tesouro Real – Lisboa/Reprodução)

Já estava pronto para escrever uma análise geopolítica com cheiro de fumo. Ia comentar que o tabaco foi um dos primeiros commodities das Américas a fazer sucesso na Europa — cigarro, charuto, fumo de cachimbo e rapé — e que, veja só, continuava firme como item de exportação. Mas fui conferir a matéria antes de sair espalhando bobagem. A repórter falou outra coisa. E eu entendi “rapé”.

Para quem não conhece, o rapé é fumo torrado e triturado até virar um pó finíssimo, que se assopra no nariz — sozinho ou com ajuda de alguém mais corajoso. Dizem (sem comprovação científica, mas com muita fé) que descongestiona as vias respiratórias: sinusite, bronquite, asma. Alivia enxaquecas e, dependendo do tempero, pode até ajudar na busca por harmonia, relaxamento e autoconhecimento. Um tipo de SPA nasal amazônico.

No século XVI, cheirar rapé virou moda nas cortes europeias. Era très chic guardar o pó numa caixinha chamada “boceta” (com “o”, vem do latim buxis ou buxida). O uso era tão disseminado que a palavra acabou emprestando seu nome para outras coisas.

Minha avó Rosinha sempre tinha uma latinha de rapé no bolso do avental. No outro bolso, um lenço. Era um sistema fechado: assopra, limpa, repete.

Kuhu tú*

Cenas do filme O último azul, em que Kadu (Rodrigo Santoro) aspira um rapé mágico com um kuripe (Reprodução Netflix/JCarlos)

Talvez a confusão mental que me fez ouvir “rapé” numa notícia de economia tenha sido provocada por uma cena do filme O Último Azul. O personagem Kadu (Rodrigo Santoro) tira um pó de um vidro, coloca numa espécie de forquilha de barro (Kuripe), encaixa uma das pontas na narina e sopra com força. Depois repete o processo na outra narina, como quem está calibrando a alma.

A cena dura uns 20 segundos e vem logo depois de um ritual em que ele pinga nos olhos a baba azul de um caramujo e entra em transe. Não há explicação. O espectador que se vire. A inferência mais razoável é que se trata de uma cerimônia espiritual.

Fui pesquisar sobre esse “não dito” do filme e meu assistente IAgo Copilot (sim, dei nome pra ele) explicou que o diretor Gabriel Mascaro “insere esse gesto como parte da narrativa sobre envelhecimento, desejo e resistência num Brasil distópico”. E que “no filme, não aparece como espetáculo ou exotismo, mas como parte de um ritual de conexão espiritual”.

Rapé “sagrado” indígena, da marca Kuntanawa (Reprodução com arte Fotor/Goart)

A primeira vez que ouvi falar de rituais xamânicos com rapé foi numa aula de história com o professor Marco Teixeira. Ele falou sobre as “casas de paricá”, que existiram no Vale do Rio Guaporé e eram usadas para rituais espirituais entre os povos originários. Eu achei que era nome de pousada, mas era coisa séria.

E assim, por causa de um equívoco auditivo, fiz uma viagem em torno do rapé — que já experimentei (o comum, só com tabaco) e não gostei. Mas pelo menos rendeu essa crônica. E uma limpeza nasal.

*Kuhu tú é o rapé cerimonial dos povos originários

[Crônica XXIV/2026]