Uma reflexão sobre o etarismo e os sonhos que resistem
Quando me sentei ao lado da Marcela para assistir ao filme O Último Azul, recém-disponibilizado pela Netflix, eu só tinha lido uma sinopse bem sem vergonha: dizia apenas que a história se passava na Amazônia, sobre uma idosa que pegava um barco, com Rodrigo Santoro como timoneiro, e caía no mundo – ou melhor, nas águas. Nada além disso.
Logo nas primeiras cenas – e durante todo o filme – as paisagens urbanas e fluviais me remeteram a lugares familiares: os bairros ribeirinhos de Porto Velho, como Cai N’Água e o Triângulo (antes da usina), e localidades às margens do Rio Madeira, como São Carlos, Santa Catarina, Nazaré e Calama.
A viagem de barco pelos rios, furos e igarapés também me trouxe lembranças queridas. Cada trecho evocava um pedacinho de memória. Até o abatedouro de jacaré me fez recordar o Lago do Cuniã, onde já existiu um empreendimento desses (não sei se ainda existe).
O filme – uma ficção plausível – mostra o governo brasileiro recolhendo idosos e enviando-os compulsoriamente para uma colônia, como se fosse um “prêmio” por tudo o que fizeram. Mas, como alerta uma figurante na cena da feira, trata-se de um lugar “de onde ninguém volta”.
A lógica é cruel: os idosos não produzem mais e devem ceder espaço, mesmo contra a vontade, às pessoas ainda com vigor físico. Os descendentes passam a responder pelos atos dos pais, que ficam sob controle do governo até serem embarcados para a tal colônia.
Mas ninguém combinou com Tereza, a protagonista. Ela se sente capaz de trabalhar e não aceita ser enviada ao asilo antes de realizar o grande sonho da sua vida: “andar de avião”.
Na busca desse sonho – e fugindo da opressão – Tereza nos conduz por uma linha tênue entre realidade e fantasia. A realidade do etarismo, que impede pessoas acima dos 45 anos de conseguir um emprego decente, e a fantasia de que é possível escapar dessa sina.
O diretor ainda introduz uma lenda urbana nascida na pandemia: o “cata-véio”, veículo oficial que apreende os velhos fujões. Na época da epidemia, eram os idosos que não conseguiam ficar em casa; no filme, são os que tentam escapar do asilamento compulsório.
O desfecho é aberto, para que cada espectador complete os pontinhos com sua própria imaginação. Eu, particularmente, fiquei pensando se resistiria quando chegasse minha hora. Talvez esboçasse uma fuga, mas, no fim, acabaria aceitando o descanso prometido.
Não sei.
Serviço:
Filme: O Último Azul
Diretor: Gabriel Mascaro
Gênero: Ficção científica, drama
Elenco Principal: Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo Reis, Rosa Malagueta e Clarissa Pinheiro
Onde: Netflix
[Resenha I/2026]



