A cena que apareceu para mim no Story do Facebook mostrava um jabuti perto das pernas de uma pessoa caída no chão, ao lado de manchas de sangue. A legenda dizia: “A tartaruga da mansão invadida por criminosos assustou um dos bandidos que estava no chão após ser baleado”.
Cliquei no vídeo do Brasil Urgente, da Band, movido pela curiosidade de saber o que o jabuti — chamado de “tartaruga” — havia feito, e não pela notícia em si.
O repórter contou que o homem estava caído na calçada, após o tiroteio com a polícia, quando a “tartaruga” saiu pelo portão da garagem e foi em direção ao ferido. O sujeito começou a gritar desesperado, com medo de ser mordido. Num gesto patético, lançou o boné sobre o bicho, como quem tenta afastar um fantasma.
Na casa da minha avó, em Teófilo Otoni, havia um jabuti que vivia por lá há muitos anos. Lembro-me de procurá-lo no quintal para montar nele, o que raramente conseguia. Parece que a minha fama me antecedia: tanto o jabuti quanto o gato desapareciam assim que eu chegava.
Muitos anos depois, outro jabuti — provavelmente jovem, pelo tamanho — apareceu na casa dos meus pais. Ele também vivia pelo quintal, mas costumava surgir na porta da cozinha, quando minhas irmãs o alimentavam com folhas de couve ou pedacinhos de tomate. Numa dessas vezes, meu sobrinho Túlio foi dar comida (ou tentar tomar a comida) do jabuti e levou uma mordida dolorida no dedo. O episódio entrou para o folclore familiar.

Os jabutis estão no lendário doméstico de minha família (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot)
Mais recentemente, na casa de minha mãe, o jabuti — não o da mordida, mas outro, igualmente sagaz — tentou a fuga. Uma visita deixou o portão aberto e, num lampejo de velocidade máxima, o bicho disparou rumo à liberdade. O grito de um dos sobrinhos ecoou pela sala:
— Corre, que o jabuti tá fugindo! O portão tá aberto!
Num primeiro momento, me assustei com a gritaria. Depois, lembrei que, no folclore, o jabuti é símbolo de persistência, paciência e, claro, esperteza. Muitas lendas mostram o jabuti usando a astúcia para enganar os predadores.
E então a cena inicial voltou à minha mente: o bandido, ferido, apavorado diante de um jabuti. A crendice popular, mais uma vez, mostrou-se sábia. O jabuti, ladino e imperturbável, continua a ensinar que não é a força bruta que vence, mas a astúcia silenciosa.
[Crônica XXIII/2026]


