
Será que joguei a minha chance de ficar “quase” milionário no lixo? (Imagem gerada e editada por IA Copilot/Fotor)
A conversa começou quando perguntei às colegas de Pilates se conheciam alguém que já tivesse ganho na Trimania, aquele título de capitalização que sorteia semanalmente dinheiro, casas, carros e motos.
Logo soube que o marido de uma havia dividido um prêmio de 5 mil reais e que o pai da outra jogava sempre, mas nunca ganhou. Vieram então histórias de conhecidos que ganharam casas e prêmios maiores, além do causo de uma sortuda que levou 500 mil reais — e acabou recebendo a visita indesejada dos amigos do alheio, assim que seu nome foi divulgado.
Curiosas, quiseram saber se eu pretendia jogar neste fim de semana, quando os prêmios incluíam três sorteios de 10 mil reais, um de 500 mil (“meio milhão!”) e trinta de dois mil.
Expliquei que, enquanto esperava o ônibus, vi passar o caminhão anunciando o sorteio. Mais tarde, no centro de Florianópolis, alguém me entregou uma cartela.
— E cadê a cartela, seu José?
— Uai, joguei fora na primeira lixeira que encontrei…
— Nã, nã, não, seu José! O senhor jogou a sorte fora. Não percebeu os sinais? Primeiro o caminhão, depois o bilhete entregue… era o destino!
— Será?
Nunca saberei se teria ficado “meio milionário”. Mas lembrei de um causo que ensina: não vale a pena contar com o ovo ainda na galinha, nem desejar o mal aos outros — isso não atrai coisa boa.
Na década de 1970, quando eu trabalhava nos Correios, a loteria esportiva estava no auge. O país inteiro vivia a febre dos “treze pontos”. Quando o prêmio acumulava, filas se formavam nas casas lotéricas, todos atrás da ilusão do dinheiro fácil — como acontece até hoje com as mega-senas da vida.
Um colega carteiro, irritado com o chefe, desabafou em voz alta para todos ouvirem:
— Esta semana eu vou fazer os treze pontos e vocês vão ver só!
— O que você vai fazer, Tiê? — provocou alguém.
— Vou comprar o Correio! Vocês todos serão meus empregados…
— Vai aumentar nosso salário?
— De todo mundo, menos de uma pessoa, que será demitida.
— Quem?
— Não vou dizer agora. Segunda-feira vocês vão sentir a falta de alguém.
Tiê não ficou milionário e não comprou os Correios. Se tivesse, quem sabe a empresa não estaria na situação lamentável em que se encontra hoje.
[Crônica XIII/2026]
