Morei sozinho durante um período da minha vida e, embora me gabasse nas rodas de conversa de que estava bem naquela situação, carregava no fundo do subconsciente o medo real de morrer sem que ninguém percebesse — e ser encontrado apenas meses ou anos depois.
Racionalmente, isso não parecia possível. Eu trabalhava, e meus hábitos de pontualidade e assiduidade fariam falta. Além disso, escrevia regularmente uma coluna eletrônica, e os leitores — acredito — notariam a interrupção de uma publicação diária.
Mas houve um episódio marcante: fiquei doente, acometido por uma febre alta provocada pela dengue, já no tempo em que namorava Marcela. Naquele dia não telefonei, tampouco retornei suas ligações. Preocupada, ela foi até meu apartamento e me encontrou acamado, completamente prostrado, dissolvendo-me em suores.
Isso funcionou para mim como um sinal.
Você morreu?
Dias atrás, uma empresa chinesa lançou um aplicativo voltado a pessoas que vivem sozinhas. A proposta é simples: avisar alguém caso o usuário deixe de dar sinal de vida por 48 horas. O software é descrito como uma “ferramenta de segurança projetada para quem mora sozinho (…) para tornar a vida a sós mais confortável”.
“Se você não fizer login por dois dias, o sistema enviará um e-mail para o seu contato de emergência”, promete a versão internacional do programa, batizado de “Você morreu?”. O ícone do aplicativo é a imagem de um fantasminha, que foi considerado de mau gosto por alguns chineses.
No Japão — segundo pesquisa que encomendei ao meu assistente Iago Copilot — em 2024 cerca de 76.020 pessoas morreram sozinhas em casa; em 21.856 casos, os corpos só foram descobertos após mais de oito dias. Esse fenômeno, chamado kodokushi (“morte solitária”), é considerado uma epidemia social no país.
No Brasil, não há estatísticas nacionais sobre mortes solitárias descobertas dias depois. Os casos surgem em notícias isoladas. Em janeiro, por exemplo, uma idosa foi encontrada em avançado estado de decomposição, deitada em sua cama, em Boa Vista (RR). Outro caso ocorreu em Sorocaba (SP), onde uma idosa foi amarrada e amordaçada, sendo localizada apenas dias após a morte. Em comum, o fato de viverem sozinhas, sem contato frequente com parentes ou amigos. As descobertas vieram de vizinhos alertados pelo mau cheiro da decomposição.
Se algum dia eu me visse em situação de solidão — voluntária ou não — já teria baixado o aplicativo chinês. Faria minha prova de vida religiosamente, só para garantir que não me faltasse, ao menos, uma oração do “Pai Nosso” com um amém no final.
[Crônica XII/2025]

