09 de janeiro de 2026

O velório perdido

Por José Carlos Sá

Pedro Boca “apagou” esperando o velório (Imagem gerada e editada por IA Copilot/Fotor/IIoveIMG)

A notícia da morte do seu Aristeu correu rápido entre os vizinhos, que já aguardavam por esse desfecho. O velho havia sido “adotado” pela rua: morava sozinho na cidade, bastante idoso, e estava doente havia muitos meses. Nos últimos dias, fora internado no hospital público, desenganado pelos médicos.

Dona Gegê (Gertrudes apenas na certidão de nascimento) foi ao hospital tratar da liberação do corpo e, pelo grupo de WhatsApp, mobilizou os vizinhos, disparando ordens para que preparassem o velório no salão paroquial da igreja da comunidade.

Pedro Boca ficou encarregado de pedir a liberação do salão, arrumar as cadeiras e providenciar o que fosse preciso. “Pode fazer as despesas necessárias, Boca, que depois acertamos com você”, dizia o zap da dona Gegê.

A zeladora da igreja informou que, por ela, o salão estava liberado, mas precisava da autorização do padre, que naquele momento seguia de moto para uma celebração e só poderia entregar as chaves após o seu aval.

Mentalmente, Pedro Boca fez uma lista do que não podia faltar em um velório, baseada em sua experiência no interior de Minas Gerais, mais de cinquenta anos atrás. Foi à padaria e comprou pão de queijo, pão francês, queijo e apresuntado fatiado (mortadela não tinha), um pacote de café, meio quilo de açúcar, copos descartáveis e duas garrafas de cachaça 51.

Levou tudo para casa, separou uma garrafa térmica para o café e ficou esperando o aviso da zeladora para buscar a chave do salão. Pouco depois das 19 horas, resolveu abrir uma das garrafas de cana e dar uma bicada. Levantou o copo, fez uma reverência ao seu Aristeu e bebeu a cachaça, torcendo o rosto em careta.

Nos minutos seguintes repetiu o gesto várias vezes, até se largar no sofá, com o telefone de um lado e o copo do outro. Fechou os olhos por um instante e, quando os abriu novamente, já eram três da madrugada.

Assustado, deu um salto no meio da sala e gritou:

— Jesus, Maria, José! Estou perdido! Onde colocaram o corpo do seu Aristeu? O que que eu fiz, meu Deus?

O coração disparava, o suor escorria pelo rosto e encharcava a camisa de linho que vestira para o velório.

Pegou o telefone e viu seis chamadas não atendidas da zeladora da igreja. Ignorou-as e foi direto procurar mensagens da dona Gegê. “Ela vai me matar”, pensava, “ou pior, vai me chamar de cachaceiro na frente de todo mundo!”

Finalmente encontrou a mensagem aguardada. Era uma só, em áudio. Tremendo de ansiedade, deu play. A voz dizia apenas:

— Boca, o velório na igreja foi cancelado! O filho do seu Aristeu apareceu e levou o pai para ser velado na capela do cemitério. Muito obrigado, Boca. Amanhã eu pago as despesas que você fez.

Pedro Boca não pregou mais os olhos naquela noite. E decidiu, ali mesmo, parar de beber.

[Crônica VII/2026]

Tags

Cachaça 51 Crônica Pão de queijo Velório 

Compartilhar

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*