Na sexta-feira, 2 de janeiro, quando concluí a leitura do livro Independências da América Latina, do professor Valdir Santos (Editora Contexto, São Paulo, 2025), eu não imaginava que, a alguns milhares de quilômetros ao norte da minha casa, estava em andamento a chamada Operação Resolução Absoluta (Absolute Resolve).
Na madrugada de sábado, tropas e aviões norte-americanos invadiram o território da Venezuela e sequestraram o presidente daquele país e sua esposa.
O livro do professor Valdir Santos narra as lutas das colônias americanas que buscavam se libertar da Espanha e de Portugal. O período estudado vai do final do século XVIII até o final do século XIX, relacionando os diversos líderes das revoltas que, pouco a pouco, foram solapando e expulsando os colonizadores.
Eu nunca havia me aprofundado nesse assunto e carregava a falsa impressão de que os países da América Latina haviam se libertado de forma semelhante ao Brasil. Descobri que não foi nada fácil.
Quero dizer: no Brasil o processo de independência também não foi simples, mas nada comparado ao que ocorreu no Peru, Chile, Alto Peru (Bolívia), Paraguai, Confederação Argentina (Argentina), Equador, Nova Granada (Colômbia), Venezuela, México e nas Províncias Unidas da América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Costa Rica).

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sequestrado pelos norte-americanos (Foto Truth Social/AFP – Reprodução)
Os interesses pessoais e de grupos dificultaram muito a luta de libertação. Alguns queriam apenas se livrar da Espanha; outros, dos impostos cobrados em nome do rei.
Além disso, as lideranças não se entendiam — até pela dificuldade de comunicação em uma região imensa, banhada por dois oceanos e cuja ligação, até hoje, depende do Estreito de Magalhães, no extremo sul da América do Sul.
Pequenas guerras civis por assuntos locais se somaram aos problemas que a Espanha enfrentava na Europa, até que, aos poucos, a América Latina foi conquistando sua independência: Paraguai, 1811; Argentina, 1816; Chile, 1818; Venezuela e Colômbia, 1819; México, 1821; Equador, 1822; Peru, 1824; Bolívia, 1825; Nicarágua, Costa Rica, El Salvador, Guatemala e Honduras, 1838; e República Dominicana, 1865.
Nesse contexto, vieram também a libertação de Cuba e, mais tarde, do Panamá. O Uruguai, por sua vez, conseguiu se separar do Brasil.
E aí voltamos ao início deste texto: tropas norte-americanas invadiram a Venezuela e todos seguimos embasbacados com a ação e com a falta de reação do mundo. Daqui a pouco, como dizia o poema No caminho, com Maiakóvski, de Eduardo Alves da Costa:
“(…) Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada. (…)”
Não é assim?
Ah, quanto ao livro: achei muito chato e arrastado.
[Crônica VI/2026 / Resenha I/2026]

