05 de janeiro de 2026

Eu, centurião romano

Por José Carlos Sá

O menino queria tanto ser soldado romano que esqueceu o pecado que eles cometeram (Imagem gerada por IA Copilot/Microsoft)

Não sei qual foi o assunto levantado pela Marcela que me trouxe uma lembrança da infância. Foi uma frustração que não deixou maiores danos além de uma vontade não realizada.

Naquele tempo — passagem da década de 1950 para a de 1960 — Hollywood vivia a “Romamania”, com lançamentos de filmes como Ben-Hur (1959), Quo Vadis, Manto Sagrado, Spartacus e Cleópatra (1963). Todos chegaram à minha Teófilo Otoni (MG), e alguns deles tive a oportunidade de assistir, levado por minha mãe junto com meus irmãos.

No embalo desses filmes, uma fábrica de brinquedos lançou um kit de fantasia em plástico pintado de prateado. O conjunto vinha com um capacete (elmo romano), um escudo, uma espada com bainha e uma capa de tecido simples.

Quando vi aquela fantasia de soldado romano na vitrine de uma loja perto da casa da minha avó — e ao lado do cinema — ela se tornou meu sonho de consumo. Passar pela frente da loja para vigiar o kit de centurião virou uma das minhas obsessões. A outra era insistir com minha mãe para que comprasse o brinquedo.

Não sei quanto custava, mas certamente não cabia no orçamento familiar, apertado e sem espaço para supérfluos. Eu, no entanto, era criança e queria ser um legionário romano.

A pressão psicológica sobre minha mãe não surtiu efeito. A moda romana passou, substituída por outros modismos, agora ditados pela televisão. Um deles — nesse tivemos sucesso, meu irmão Paíto e eu — foi a capa do Super-Homem, conquistada numa promoção das Lojas Guanabara, já em Belo Horizonte. Nossos pais precisaram comprar carrinho de bebê para nossas irmãs Lúcia e Rosa, e os mais velhos ficaram com as capas do herói da série de TV.

Hoje, pensando nessa passagem da vida e na minha obstinação pela fantasia de soldado romano, percebo que a vontade era tanta que até esqueci que foram os legionários romanos que pregaram Jesus na cruz…

[Crônica V/2025]