
Tonho Véio caiu na lama, mas mesmo assim foi abraçar as crianças (Imagem gerada e editada por IA Copilot/Fotor/IloveIMG / Montagem BN PPT JCarlos)
Nossa comunidade rural fica a uns 13 quilômetros da sede do município, numa região chamada Tabatinga desde os tempos dos povos Pankararu. O nome, em tupi-guarani, significa “terra branca” — e basta chover para as poças ficarem com aquela cor leitosa. Mas por que começo a história do Natal inesquecível falando da geografia da vila? Porque esse detalhe foi decisivo na noite de 24 de dezembro de 1981.
O administrador local, de olho em uma candidatura a vereador, resolveu conquistar a simpatia do povo com uma festa natalina. Contratou alguém para se vestir de Papai Noel e distribuir presentes às crianças. O escolhido foi o querido “Vô Tonho” — ou “Tonho Véio” — vendedor ambulante, figura conhecida e respeitada.
Tonho era alto, forte, de cabelos precocemente brancos e pele clara que ficava vermelha depois de uns goles nas vendas da estrada. Seu carro era um fusca, já bem cansado de guerra. Na tarde do grande dia, vestiu a fantasia alugada da diretora da escola, encerou o fusca e, para ganhar coragem, tomou uma talagada antes de pegar a estrada rumo a Tabatinga.
O problema é que, de bar em bar, de gole em gole, Tonho foi chegando ao destino cada vez mais animado. Em cada parada, brindava com “Ho, ho, ho! Feliz Natal!”, e os amigos retribuíam com mais uma rodada da “pura”.
Na entrada da vila, o fusquinha caiu numa poça funda. A placa dianteira despencou na lama. Tonho, já sem raciocínio muito firme, entrou na poça para resgatar a peça. Primeiro com os pés, depois com as mãos, até que perdeu o equilíbrio e tombou de corpo inteiro na lama branca. Levantou-se xingando, mas seguiu viagem, agora com a fantasia de Papai Noel transformada em traje de monstro.
As crianças, ansiosas pela chegada do bom velhinho, correram ao encontro do fusca-trenó. Mas quem saiu de dentro foi uma criatura enlameada, do gorro às botas. Ao tentar abraçá-las, provocou pânico: gritos, correria, os maiores empurrando os menores, todos em desespero. Os adultos, incluindo o organizador da festa, avançaram para proteger os filhos e começaram a bater no “monstro”. Só depois de algumas bordoadas perceberam que era o Vô Tonho, que, meio trôpego, tentava explicar o ocorrido.
Resultado: a festa foi um fiasco, e o administrador desistiu da candidatura. A história, porém, virou lenda na vila. Até hoje é contada de geração em geração — e todos juram que aconteceu exatamente assim.
[Crônica CCLXXVI/2025]
