Longino Protásio era o poeta da cidade. Chamavam-no de “poeta” para não chamá-lo de doido. Mas todos gostavam dele e, vez ou outra, pagavam-lhe uma cachaça só para vê-lo discorrer sobre os mais diversos e complexos assuntos.
Falava de futebol à corrida espacial; da conjuntura sociopolítica dos Estados Unidos ao problema da balança viciada do açougue do Dedinho. Para qualquer tema tinha uma opinião “abalizada”, da qual não abria mão.
Sua especialidade, porém, eram os discursos laudatórios aos defuntos — fossem eles pessoas importantes ou não.
Chegava à beira do túmulo com ar “circumplexo”, postura ereta, uma mão no peito e a outra atrás das costas, e largava o palavrório. Só parava quando alguém com autoridade — o padre ou o coveiro — o lembrava de que a cerimônia precisava continuar.
Em um desses discursos póstumos, na morte de Vendelino “Quarenta Graus”, cuja assistência se resumia a dois amigos, o coveiro e o auxiliar, Longino resolveu não economizar seus conhecimentos para saudar o folclórico personagem. Vendelino tinha o hábito — depois da terceira dose — de pagar cachaça para todos no bar. A oferta era compulsória: quem recusasse corria o risco de levar umas bordoadas.
Longino começou dizendo que, sob aquele sol “ensurdecedor”, poucos se despediam de uma pessoa querida que partira ‘dessa para a outra’.
“‘Um é pouco e dois não bastam!’ — prosseguiu inconformado — Onde estão aqueles que compartilhavam com Vendelino as mesas dos bares? Foi só ele morrer para sumirem. Como dizia meu pai: ‘A gente se esquece porque não lembra’. Eu não quero me ‘gambar’ da memória que tenho para reconhecer meus amigos de verdade. Mas antes tarde que mais tarde, eu não quero criar aqui um ‘bicho de sete caveiras’. Com essa descortesia, com essa falta de consideração para com aquele que um dia pagou uma cachaça para todos, eu até perco o ‘estribilho’ e vou-me embora!”
O veemente, mas breve, discurso do poeta foi comentado logo após o enterro, no bar que o falecido frequentava. Os presentes se desculparam por não terem ido prestar as últimas homenagens. Afinal, Vendelino era quase parente de todos ali. E reconheceram que Longino tinha razão — mesmo sem entender a maior parte do que fora dito.
— Parece que o poeta gostava mesmo do Quarenta Graus, pois chamou nós todos de mal-agradecidos. Só não falou nada sobre o fato de que a gente não podia recusar a pinga que ele oferecia. Pinga boa é aquela que se bebe por prazer; se o outro paga, melhor ainda. Mas se é obrigado a beber, nem o poeta, que é doido de pedra, iria gostar!
[Crônica CCLXXIII/2025]

