01 de dezembro de 2025

O despertador das 18 horas

Por José Carlos Sá

O que pode acontecer a uma pessoa que estiver dormindo no minuto que separa a tarde da noite? (Imagem gerada por IA Copilot/Montagem Fotor/Photoroom/BN PPT JCarlos)

Os dicionários ensinam que “tradições são a transmissão de costumes, crenças, conhecimentos e valores de uma geração para outra”. Podem ser religiosas, culturais, de conhecimento ou mesmo alguma mania familiar que inexplicavelmente vai sendo repetida ao longo dos anos.

Na minha família havia algumas tradições que desapareceram com o tempo, à medida que cada irmão seguiu seu caminho. Lembro de montar a árvore de Natal em conjunto, com mãe dando as coordenadas; das festas juninas, quando pai fazia a fogueira e mãe preparava os quitutes; e dos domingos com missa às oito horas e frango assado no almoço. Até os aniversariantes tinham um privilégio: no dia do natalício não levavam surras, desde que a peraltice não fosse exagerada.

Mas há tradições curiosas. Conheço a história de uma família que cortava a ponta da alcatra antes de assar. Ninguém sabia o motivo, até que a avó explicou: “Eu cortava porque a peça não cabia inteira na forma.”

A lembrança que me levou a escrever esta crônica é outra: o costume de minha mãe de não deixar ninguém atravessar dormindo a barreira imaginária entre a tarde e a noite, aquele minuto entre 17h59 e 18h.

Quando eu morava em casa, isso me irritava. O domingo era meu dia de descanso, depois de uma semana extenuante como carteiro e estudante à noite. Após o almoço, eu dormia. Mas perto das 18 horas, mãe aparecia no quarto e me acordava carinhosamente: 

— Neném, Neném, acorda, já vai dar seis horas… 

— Ah, mãe, me deixa dormir…

 — Não, meu filho. Faz mal dormir essa hora.

Obediente, eu levantava, protestando em silêncio.

Dias atrás, lembrei desse costume e resolvi investigar. Não encontrei nada na internet que justificasse cientificamente o “despertador das 18 horas”. Perguntei à mãe numa chamada de vídeo. Ela respondeu com um sorriso largo: 

— É para não perder o sono da noite!

Decepcionado, pois esperava uma explicação esotérica, talvez, insisti. Ela completou: — Minha avó dizia isso para minha mãe, minha mãe fazia comigo e com Nívia, e eu faço com vocês até hoje. Se vejo alguém dormindo no finzinho da tarde, chamo para não perder o sono da noite, que é o que vale.

Assim como o corte da alcatra, o despertador das 18 horas não tem nada de sobrenatural. É apenas um costume de conveniência.

[Crônica CCLXIV/2025]

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Comportamento Costumes Cultura D. Nilta Festa junina Hábitos Minas Gerais Nívia Dutra Tradição 

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