05 de novembro de 2025

A gaveta

Por José Carlos Sá

O que fazer com a gaveta contendo os sonhos do Rui? (Imagem gerada pelo Iago, meu assistente IA Copilot/Microsoft)

Quando a empresa mudou de endereço, fomos para um prédio recém-construído e mobiliado. Por economia — mas alegando funcionalidade — reuniram todos em um só ambiente, alojados em postos de trabalho de um metro por um metro, agrupados por atividades afins. Apenas os gerentes e o pessoal da contabilidade tinham salas fechadas com vidro.

Logo no primeiro dia, meu colega de bancada ficou irritado com o mobiliário: não havia gavetas, apenas o tampo onde colocávamos o notebook. O espaço restante deveria acomodar copos, canetas, material de anotação, o telefone fixo individual e algum enfeite pessoal.

O Rui — vou chamá-lo assim — tinha uma mania curiosa. Chegava, sentava-se, passava a mão sobre a cabeça como se apanhasse um pensamento, abria a gaveta da mesa e o guardava ali, fechando o compartimento com cuidado.

Perguntei uma vez se era simpatia. Ele respondeu com silêncio. Deixei pra lá. Como dizia meu pai: “cada doido com sua mania”.

Foi por isso que ele se enfureceu. Não havia gavetas para guardar o não-sei-o-quê que apanhava do ar. Mas a necessidade é a mãe da invenção. Rui foi até a impressora, pegou uma folha em branco, desenhou nela o tampo de uma gaveta com puxador e afixou o papel na bancada, como se fosse uma gaveta real.

Depois, fez seu ritual: passou a mão sobre a cabeça, abriu a gaveta fictícia, guardou o pensamento e fechou.

Eu estava viajando quando soube que Rui havia passado mal e fora internado. Dois dias depois, morreu. Quando voltei, nosso chefe pediu que eu recolhesse os objetos da baia dele e entregasse à família.

No espaço que ele ocupava havia apenas a folha de papel, já amarelada, fixada com fita adesiva. Retirei o durex com cuidado e coloquei a folha num envelope.

Na casa do Rui, fui recebido pela irmã dele, Ruth, com quem morava. Conversamos sobre a causa da morte — uma doença misteriosa e rápida. Depois, entreguei o envelope com o desenho, única coisa que encontrei no espaço que ele ocupava.

Ruth retirou a folha e olhou para ela em silêncio. Vi duas lágrimas descerem pelo seu rosto. Depois, guardou a folha e me devolveu, dizendo:

— Antes de morrer, o Rui pediu pra eu dizer a você que ficasse com a gaveta dele. Ele disse que você pode abrí-la e ficar com tudo que está lá dentro.

Agradeci, me despedi. Agora estou aqui em casa, olhando para esta folha amarelada sobre a minha mesa, sem saber o que fazer.

[Crônica CCXLVII/2025]

Tags

Crônica Ficção 

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