
As crianças foram ao circo estragar o mistério do mágico (Imagem criada pelo Iago, meu assistente IA Copilot/Microsoft)
“O circo chegou, vamos todos até lá”, cantava Jorge Benjor — ainda Jorge Ben — nos idos de 1972. A letra falava da magia do lugar: dos bichos amestrados, da mulher que virava gorila, do mágico e do misterioso palhaço, sem esquecer da bandinha de música que dava o clima das atrações.
Minha mãe nos levava aos circos que passavam por Teófilo Otoni (MG) e, mesmo conhecendo as atrações, nós ríamos das (mesmas) piadas dos palhaços, prendíamos a respiração no número do trapézio e quase morríamos do coração ao ver a exibição dos motociclistas no “Globo da Morte”.
Mas aí assisti ao filme O Maior Espetáculo da Terra e minha perspectiva mudou com relação aos circos. Na história, o vilão sabotava o trapézio e causava um acidente. O palhaço, que nunca tirava a maquiagem, era um criminoso procurado pela justiça. Depois disso, toda vez que eu ia a um espetáculo, minha esperança (!!) era ver alguém despencando lá de cima — e todos os palhaços eram “suspeitos”.
Essas memórias foram desencadeadas no sábado, quando nosso carro ficou atrás de uma picape que anunciava alguma coisa incompreensível por antigos alto-falantes em formato de corneta, que há muito eu não via. Mesmo de perto, não entendíamos nada do que era apregoado.
Só no destino é que soubemos: naquele dia seria a estreia de um circo em um bairro de Palhoça (SC), anunciado pela caminhonete de som. As lembranças da meninice da proprietária da lojinha em que estávamos também foram acesas — e relacionadas a circos.
Desvendando mistérios
Um mesmo circo visitava a cidadezinha dela, no interior de Santa Catarina, com regularidade, e se instalava num terreno pertencente à família. Com isso, logo fizeram amizade com os membros da trupe, especialmente as crianças.
Um dos garotos era filho do dono do circo e virou atração particular da meninada, pois viajava muito e sabia dos “segredos” do picadeiro. Numa tarde de pré-estreia, enquanto os adultos espichavam a lona e martelavam as estacas, o menino resolveu dar um spoiler (que naquele tempo tinha outro nome) dos truques do mágico que estreava naquela temporada.
Contou como o mágico escondia na mão a bolinha que “sumia” na cabeça do espectador, ou a pombinha que aparecia na caixa “vazia”, entre outros. Mas, como todo contador de segredos alheios, pediu aos colegas que não revelassem nada do que disse.
A noite da estreia foi marcada por grande expectativa — não aquela causada toda vez que o circo chegava à cidade, mas pela missão dos garotos: estragar o show do mágico.
E conseguiram.
Foi a última vez que aquele circo retornou à cidadezinha no interior de Santa Catarina — para tristeza de muitos e alegria dos meninos sabidos que revelaram os segredos do mágico.
[Crônica CCXLVI/2025]
