
Entre um gole de café e um biscoitinho, sigo firme no papel de leitor performático — mas com conteúdo de verdade (Imagem e legenda geradas por IA Copilot/Montagem BN JCarlos)
Leio na Folha um artigo do jornalista David Lucena, especialista em cafés (“Conta tudo da bebida, do grão à xícara”, é o lema da coluna), atraído pelo título: Cafeterias-livrarias criam ambientes para ler e ser visto lendo.
O autor descreve que algumas cafeterias do Rio de Janeiro e de São Paulo têm ampliado seus espaços para venda de livros e criado ambientes especialmente destinados à leitura — como era moda na Europa do século XVIII. No Brasil, tivemos muitas livrarias que funcionavam como pontos de encontro de políticos e intelectuais, e que foram citadas por romancistas.
A Livraria Globo, em Porto Alegre, reduto de Érico Veríssimo, ou a Livraria Garnier, no Rio de Janeiro, parada obrigatória de Machado de Assis, são exemplos de locais onde se vendiam livros e se conversava sobre literatura ou política entre formadores de opinião. Dali podiam sair artigos de jornal e continuar, no papel impresso, o entendimento — ou o desentendimento — sobre algum tema iniciado entre as prateleiras.
Mas hoje em dia — e não é de agora — ler um livro mudou de patamar. A velocidade com que as coisas acontecem, somada às facilidades proporcionadas pela internet, trouxe uma certa preguiça de ler qualquer publicação que tenha mais de três linhas e não venha acompanhada de uma ilustração.
Os textos, além de curtos, precisam ser de fácil digestão. Caso contrário, estão fadados ao esquecimento.
Voltando ao artigo, o jornalista escreve que os novos espaços cafeteria-livraria servem para ostentar. Isso mesmo. As pessoas frequentam esses ambientes para serem vistas lendo. Reproduzo um trecho que Lucena escreveu:
“A tendência de unir café e literatura levanta o debate sobre performative reading, essa leitura exibicionista que ganhou as redes sociais. O voyeur literário não está interessado apenas em ler. Ele quer ser visto lendo — e postar no Instagram e TikTok.”
Aproveito para saber o que é performative reading e descubro que se trata de “um fenômeno cultural moderno no qual a leitura é usada como uma performance social para construir uma imagem pública ou para parecer intelectualmente engajado, e não para aprofundar o conhecimento”.
Eu, que ainda cultivo o hábito de ler livros em público — qualquer lugar onde tenha que tomar “chá-de-cadeira” —, posso estar sendo catalogado como um leitor performático, “para se aparecer”. Talvez por isso, nessas situações em que aproveito as esperas intermináveis para adiantar a leitura, sinto olhares interrogadores ou curiosos.
Em um tempo em que eu lia para evitar que as pessoas se aproximassem de mim, havia quem, mesmo assim, se aproximasse e perguntasse o que eu estava fazendo. Nesse caso, eu ficava pensando no que deveria responder.
Agora vejo que eu estava adiantado no tempo e que, sem intenção, lançava uma tendência: chamar a atenção dos outros ao ler um livro em público. A diferença é que eu lia de verdade.
[Crônica CCXXV]
