
Sonildo lia para Lindaura, mas quem respondeu foi o bispo (Imagem gerada por IA Copilot/Editada Fotor)
A família de Sonildo não era religiosa. A única demonstração de fé era fazer o sinal da cruz ao passar em frente a uma igreja — um gesto automático. Não pergunte o motivo: ninguém saberia explicar.
Numa manhã de domingo, o pai foi à feira da cidade e levou Sonildo junto. Ia demorar, e não havia lugar seguro para deixar o cavalo e as duas mulas que levavam a produção para vender — e as compras que fariam.
O menino se sentou na escadaria da igreja matriz, segurando as rédeas dos animais. A missa estava sendo celebrada e, curioso, olhou pela porta. Ficou impressionado com a suntuosidade da pequena igreja: cheia de dourados, luzes e um cheiro que ele ainda não conhecia — o incenso.
O que mais marcou Sonildo foi não entender nada do que diziam. O padre, lá na frente, de costas, falava algo e os fiéis respondiam, mas ele não compreendia. Mesmo assim, decorou algumas palavras para perguntar ao pai depois: “Dominos ao bispo” (Dominus vobiscum) e “É com o espírito tum tum” (Et cum spiritu tuo). Nem o pai, nem a professora sabiam explicar.
Mais tarde, ao se mudar para a cidade, Sonildo procurou uma igreja para frequentar. O ritual havia mudado: o padre já falava em português — embora ele ainda não entendesse o significado de muitas palavras. Foi a curiosidade que o aproximou do padre, com quem passou a conversar e perguntar sobre as partes da cerimônia litúrgica, aprendendo o simbolismo de cada fase da missa.
O padre o convidou a ajudar nas celebrações de domingo como comentarista. Cabia a ele dar as boas-vindas aos fiéis e fazer as leituras dos textos do Antigo e do Novo Testamento. Sonildo recebeu a incumbência com alegria e se sentiu importante ao falar para a igreja lotada, sendo o centro das atenções.
Foi essa exposição que despertou os olhares de Lindaura, uma moça que acompanhava a mãe e se sentava no segundo banco do lado esquerdo do altar. Trocaram olhares e, no terceiro domingo após o início do flerte, se falaram na saída da igreja.
Agora, Sonildo fazia as leituras — não para o rebanho, mas para Lindaura.
Num domingo em que o bispo da diocese veio celebrar a missa, Lindaura chegou à igreja particularmente bonita, e os olhos de Sonildo a procuravam a cada instante. Ele lia os textos automaticamente, sem saber o que estava dizendo.
Após o salmo, em vez de apenas anunciar, Sonildo — cada vez mais distraído — começou ele mesmo a leitura do Evangelho: — Naquele tempo, disse Jesus…
— Não disse nada! — gritou o bispo, dando um pulo e empurrando Sonildo para fora do púlpito. — Essa leitura é minha! — arrancando gargalhadas da assembleia.
Foi o fim da carreira de Sonildo como comentarista nas missas — e como futuro namorado de Lindaura. A vergonha foi tanta que ele nunca mais voltou à igreja, nem procurou a moça. Achava que ela havia sido a causa do seu vexame público.
[Crônica CCVII/2025]
