15 de setembro de 2025

Ouvindo o mar

Por José Carlos Sá

Minas não tem mar, e eu tenho imaginação (Imagem gerada por IA Designer/Microsoft)

Umas conchas que vi no Museu de Ciências Naturais de Guarapuava (PR), há alguns dias, me remeteram à infância, lá em Teófilo Otoni.

Na casa dos meus avós maternos havia uma concha grande, bonita, que ficava sobre um móvel da sala. Não sei se foi minha mãe ou minha avó quem sugeriu que eu encostasse o ouvido à concha para ouvir o barulho do mar.

Morávamos no interior de Minas, longe do litoral, e naquela época eu conhecia muito pouco sobre o mar. Sabia que a água era salgada, que havia diferença entre oceano e mar. Os oceanos eram o Atlântico (o “nosso”) e o Pacífico, também ouvia falar do Mar da Galileia e do Mar Morto — referências bíblicas.

Havia uma terceira referência, sempre citada por minha avó paterna, que eu não compreendia bem, nem conseguia imaginar o que significava: “O mar não tem fim!” Era uma metáfora? Uma poesia? Ainda não sei.

Encostava o ouvido na concha e ouvia ruídos que, para mim, eram provocados pelas ondas. Eu acreditava que fosse.

Só agora, escrevendo esta crônica, resolvi pesquisar sobre o assunto. Digitei na busca: “crença de ouvir o barulho do mar em uma concha” — e os robôs responderam, esclarecendo uma dúvida que me acompanhava há décadas e que eu nunca tinha procurado entender.

Dizem eles: “É uma ilusão sonora criada pela ressonância, onde o formato da concha amplifica e concentra os sons ambientes ao redor. Esses ruídos, captados pela concha e refletidos internamente, são percebidos como o som das ondas, graças também à nossa expectativa psicológica e à memória associada à praia.”

Explicado. Mas tem um porém: eu não tinha “memória associada à praia”, pois nunca tinha ido a uma. Procurei entender como eu podia ouvir o barulho das ondas se não sabia como era esse barulho. O site da revista Superinteressante desmistifica a coisa e informa que o ruído que eu ouvia era, na verdade, o som do meu próprio coração pulsando.

O mar não tem fim — dizia minha avó, mas eu tenho imaginação. Taí a concha para confirmar.

[Crônica CCVI/2025]