O livro “A luneta mágica”, escrito em 1869 e relançado recentemente após dezenas de reedições, me fisgou com uma isca irresistível: disseram que era “o primeiro romance de fantasia da literatura brasileira”.
Fã declarado do realismo mágico, baixei o livro — que está em domínio público — e logo percebi que exageraram na classificação. A obra de Joaquim Manuel de Macedo, autor de A moreninha (que li compulsoriamente), tem mais de sátira social do que de fantasia propriamente dita.
O protagonista, Simplício, sofre de miopia física e moral. Não enxerga a duas polegadas dos olhos e é enganado pelo irmão, que administra sua herança, além de conviver com uma tia e uma prima também interessadas na fortuna.
A certa altura, Simplício é levado a uma ótica no Rio de Janeiro, mas quem resolve seu problema é um armênio misterioso, que fabrica um monóculo mágico. Ao usá-lo, Simplício vê tudo com nitidez — mas se fixa o olhar por mais de três minutos, enxerga o lado sombrio das pessoas e das coisas. O mal que todos carregamos.
Outras lunetas

Quando fixou o olhar em um beija-flor, com a lente do mal, Simplício se apavorou com o que viu (Ilustra Eduardo Schloesser)
Esse poder de ver o lado oculto leva Simplício ao isolamento. Ninguém quer ser analisado moralmente. Com medo de ser internado como louco, ele quebra a lente e volta à semi-cegueira.
O armênio então fabrica uma nova lente, que revela apenas o “bem”. Ingênuo, Simplício acredita em todos e começa a gastar sua fortuna com jantares, falsas obras de caridade, apostas e negócios duvidosos — mesmo sendo alertado de que estava sendo enganado.
Pressionado, decide se matar. Sobe ao morro do Corcovado — onde hoje está o Cristo Redentor — e, antes de se jogar, resolve usar a luneta para ver o futuro do país. Se fixasse o olhar por mais de treze minutos, teria essa visão, embora o armênio não recomendasse.
“A visão do futuro… primeiro e de súbito imensa e compacta nuvem negra cobrindo todo o horizonte e logo através dela vivíssimo e penetrante raio de luz que me feriu e deslumbrou, que me fez recuar e cair por terra, quebrando-se em migalhas a luneta mágica de encontro a uma pedra!”
O suicídio é impedido pelo armênio, que surge misteriosamente. Ele então fabrica a terceira e última lente: a do bom senso. Nem o bem, nem o mal. A moral da história: todos temos qualidades e defeitos.
O crítico
Macedo, que também foi jornalista e político, usa Simplício para criticar os costumes hipócritas da época. Em uma passagem, o protagonista observa um mosquito e conclui:
“A natureza (…) auxiliou a perversidade do mosquito, dando-lhe, imperceptíveis e inumeráveis olhos (…) pelo que é lícito concluir uma coisa horrível: que cada mosquito enxerga muito mais do que os afamados estadistas do Império do Brasil, que mostram ser tão míopes como eu.”
A luneta
Quando soube do livro, vi a ilustração da editora: uma luneta estilo pirata, ou melhor, um telescópio. Mas ao ler, entendi que a “luneta” do título é, na verdade, um monóculo. Na segunda metade do século XIX, o termo francês lorgnette era traduzido como “luneta”, daí o nome da obra. Em várias edições do livro, os ilustradores desenham telescópios, ao invés de monóculos. Vai ver fizeram o desenho sem ler a obra.
Recomendo a leitura como curiosidade sobre como Macedo via seus contemporâneos — com lentes afiadas e um senso crítico que continua atual.
[Resenha XVIII/2025]

