
O cara estava com a barriga encostada na parede e sugeria uma troca (Imagem gerada por IA Designer/Microsoft)
— Deus me defenda! Crendeuspai! Ave Maria!
O grito de espanto ecoou pelo pequeno apartamento no fim da madrugada. Era a mãe, que acabara de se deparar com o filho no corredor escuro, entre a cozinha e o banheiro. Estava nu, de olhos fechados, encostado à parede, com a toalha caída aos pés — e contando em voz alta.
O susto fez com que o filho, um sessentão já bastante calvo e exibindo no corpo os efeitos colaterais do excesso de cervejas, se desconcentrasse e se agachasse rapidamente (dentro do possível) para cobrir “as vergonhas”, como diria Pero Vaz de Caminha.
As tentativas de explicação foram prontamente interrompidas por um gesto autoritário da mãe:
— A gente conversa no café da manhã.
E no café…
— Você quer me matar? Quando saí do quarto tive a visão do nono círculo do inferno de Dante! — Não, mãe. Eu só estava fazendo uma simpatia pra perder a barriga… — Toma vergonha nessa cara! Que simpatia é essa? Andar pelado pela casa? Não me respeita mais? Já não basta não trabalhar, comer, beber e farrear com o meu dinheiro?
— Calma, mãe… Sobre esse negócio de emprego, eu já expliquei… E sobre a simpatia, é essa aqui, ó…
Ele mostrou um recorte de jornal que ensinava uma prática “infalível” para perder a barriga:
“Ao acordar de manhã, de preferência sem roupas, encoste sua barriga na parede. Posicione os pés, pernas afastadas, mãos caídas ao longo do corpo. Puxe o ar pelo nariz e solte devagar pela boca, dizendo: ‘Parede, me dá sua barriga que eu te dou a minha!’ Faça isso durante 15 segundos (nem mais nem menos). Repita o ritual por 15 dias.”
A mãe amassou o papel e jogou em cima da mesa.
— Um homem, de 65 anos, acreditando numa bobagem dessas… Vou te ensinar uma simpatia que vai te manter em forma até o fim dos seus dias. É feita em duas etapas. — Qual é, mãe? — Primeiro: toma vergonha na cara. — Segundo: vai trabalhar! Ajuda o seu Zé, o zelador, e varre a escada do prédio — do sétimo andar até o térreo — todos os dias. Vai ficar sequinho, como o The Rock, que você gosta de ver na televisão, estirado naquela poltrona da sala, comendo pipoca e bebendo cerveja… Não tô dizendo?!
[Crônica CXII/2025]
