
Lembrar os defeitos que tinha foi fácil; mas das qualidades, não se lembrou de nenhuma (Imagem criada por IA Copilot/Microsoft)
O jornal Folha de S. Paulo publicou, na editoria “Carreiras”, uma matéria sobre como um candidato a uma vaga de emprego deve responder a uma pergunta que pode ser decisiva: “Quais são suas maiores qualidades e seus principais defeitos?”
Mas o assunto aqui não é como se comportar diante de um entrevistador — até porque não sou um headhunter (ou “caçador de talentos”, pra ti que não fala inglês).
É que essa pergunta, explorada na reportagem, me fez lembrar de um conhecido meu que, há muitos anos, foi internado compulsoriamente numa comunidade terapêutica. Após o período de desintoxicação, foi iniciado o processo de autoconhecimento como parte da recuperação.
Ele me contou que lhe deram uma folha de papel em branco e sugeriram que escrevesse, em uma coluna, suas qualidades — e na outra, os defeitos que acreditava ter. Os defeitos preenchidos por ele ocuparam a página inteira e o verso. Pediu então outra folha, para escrever as qualidades.
O tempo passou, a sessão de terapia terminou, e ele não conseguiu listar uma única qualidade que reconhecesse em si. O profissional que supervisionava a atividade pediu que ele pensasse mais sobre o assunto — no dia seguinte, retomariam.
Pereira — vamos chamá-lo assim — passou a noite em claro, repassando a própria vida, em profunda autocrítica. E não encontrou nenhuma qualidade sequer.
Quando recebeu alta, saiu da clínica com uma nova obsessão: encontrar uma qualidade. Qualquer uma! Honestidade, confiança, franqueza, tolerância, amorosidade, amizade, sinceridade etc.
Esse é, hoje, o propósito que move sua vida. E o gesto mais concreto que encontrou para mudar a antiga condição de “sem qualidade” foi se engajar em um trabalho voluntário.
[Crônica CIX/2025]
