15 de junho de 2025

Entre a torneira e o pecado

Por José Carlos Sá

O padre sisudo não resisitiu quando soube de um pecado inusitado (Imagem gerada por IA Copilot)

A gargalhada ecoou por toda a nave da igreja, vazia naquele horário, assustando as duas senhoras que aguardavam sua vez de se confessar com o padre Friedenreich. Elas estranharam o riso descontrolado — com razão — vindo do confessionário, onde o sisudo padre alemão costumava ouvir os pecados dos paroquianos e, antes de perdoá-los, distribuía broncas piores do que a penitência aplicada.

De onde estavam, viam a amiga dona Helsa ajoelhada, cabeça baixa diante da janelinha do confessionário. As cortinas estavam abertas e, lá dentro, o padre — com o rosto ainda mais vermelho do que o habitual — ria como ninguém jamais o vira rir. O padre “Frederico” era famoso pelo semblante sempre severo e mal-humorado.

Quando, por fim, o acesso de riso cessou, viram o padre fazer o sinal da cruz, absolvendo dona Helsa, que se levantou e, envergonhada, saiu apressada da igreja, sem olhar para os lados nem se despediu das amigas.

Por que o padre riu

O sigilo sacramental, previsto no Direito Canônico, é inviolável. Por isso, um fato inusitado pelo padre gerou uma onda de especulações na pequena cidade — onde todo mundo sabia da vida de todo mundo.

Dona Helsa, viúva há cinco anos e de moral até então intocável, trancou-se em casa e não atendia ao telefone . Ninguém sabia o que ela teria contado que arrancara do rígido padre alemão aquela gargalhada exposta.

Não foi o padre Friedenreich quem quebrou o segredo da confissão. Foi a própria dona Helsa, que ligou para a nora, em prantos, indignada com o riso do sacerdote.

Achando tudo muito estranho, e com bastante jeito, a nora insistiu:

— Mas, dona Helsa, o que a senhora confessou pra ele rir daquele jeito?

— Você lembra que me indicou um tal de “marido de aluguel” pra consertar um vazamento lá de casa? Pois então… Eu liguei e… nunca passei tanta vergonha! Primeiro, com o tal marido de aluguel. Depois, com o padre, que gargalhou na minha cara quando contei a história!

— Uai, mas o que aconteceu?

— Liguei pro serviço que você sugeriu e disse que precisava de um bombeiro hidráulico. O sujeito começou a faltar com o respeito!

— Como assim?

— Ele me perguntou que parte do corpo dele eu queria usar … e que fantasia deveria vestir: policial, bombeiro ou encanador mesmo! Eu tentei explicar, mas ele só falava besteira… acabei desligando o telefone, xingando o homem — que Deus me perdoe! Fiquei me sentindo suja… e fui confessar. Mas o padre Frederico… ele se descontrolou . Riu que só vendo. Saí da igreja chorando de vergonha. E a culpa é sua!

A nora, contendo o riso:

— Ai, dona Helsa… a senhora ligou pro marido de aluguel errado …

E foi assim. A nora contou o caso para a prima, que contou para um vizinho, que cochichou na fila do açougue… e não demorou para que toda a cidade soubesse que dona Helsa, sem querer, tinha ligado para um serviço de acompanhantes, e a viúva recatada virou piada regional.

[Crônica XCVIII/2025]

Tags

Crônica 

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