29 de dezembro de 2021

Dicionário Fanadês, Jequitinhonhês e Minerês – a resenha de hoje

Por José Carlos Sá

Os dicionários aleatórios entre Rondon e Guimarães Rosa, sob as vistas do Snoopy e do Charlie Brown (Foto JCarlos)

Eu gosto muito de dicionários. Mesmo a facilidade de procurar sinônimos em saites da Internet não impedem que eu tenha sempre à mão uma edição do “Míni Houaiss – Dicionário da Língua Portuguesa”, que divide a estante com outras obras em que relembro viagens onde ficamos conhecendo e entendendo (ou não) os dialetos locais. Temos aqui o Dicionário de Latim (ajuda em algumas leituras); o Minidicionário de Acreanês; Glossário do Linguajar Amazônico; Dicionário Papachibé; Bá, Tchê – Dicionário Temático; Juridiquês; Dicionário de Cearencês; Dicionário da Ilha – Falar & Falares da Ilha de Santa Catarina;Dicionário do Dialeto Caipiracicabano; Vocabulário Popular de Porto Velho; Dicionário de Ideias Semelhantes; Dicionário Político Josefense; e o recém-adquirido Dicionário Minerês-Português.

O dicionário que me levou de volta à infância (Reprodução)

Desde o final de novembro ‘tô garrado’ com a obra do mineiro Carlos Mota, o Dicionário Fanadês, Jequitinhonhês e Minerês – Linguagem falada às margens do Rio Fanado & Adjacências (Editora Stephanie, Brasília 2008.), de quem já tinha lido pôstes e comentários hilários no feicebuque.

Foi uma viagem no tempo e no espaço. Muitas palavras e expressões elencadas no livro remeteram à minha Teófilo Otoni, por serem faladas nas casas dos meus pais, avós e pelos colegas de Grupo Escolar. Palavras como “Currião” (cinto masculino usado pelos pais para dar uma coça em menino que fazia muita “capituria”, no caso eu); “Pistolão” (foguete. Em Belo Horizonte fui comprar um pistolão para meu pai soltar no jogo do Vasco e o dono da venda disse: “Não tem isso aqui não, menino!”); “Sussar” (Ninar criança. Minha irmã Lúcia não dormia se um de nós não sussace ela); ou “Zangaburrinha” (ou Zangaburrinho, que é a gangorra. É uma palavra que ainda falo, apesar das estranhezas que provoco). Outras expressões só são compreendidas pelos minas-novenses, por isso o autor dá o verbete e o contexto em que o termo surgiu.

Carlos Mota, ex-deputado federal, com o mandato entre 2003 e 2007 – parte do período em que morei em Brasília, assessorando o colega dele de Câmara Miguel de Souza -, explica que Fanado é o rio que banha a cidade de Minas Novas e que tem esse nome devido aos cristãos novos (judeus circuncidados) que chegaram à região para garimpar ouro e diamantes e que deu o nome à vila que se ergueu às suas margens. Era o Arraial das Lavras Novas dos Campos de São Pedro do Fanado que surgia. Depois passou a chamar Vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso das Minas Novas.

Também ri alto de muitas passagens acontecidas em Belo Horizonte, Diamantina e Minas Novas, que Carlos Mota narra com a faculdade de nos colocar como testemunhas dos causos e anedotas por ele contados. Um exemplo é essa transcrição que vou fazer e que não paro de achar graça: “Pregação. […] Felipe, um colega de serviço público em Beagá, certo dia pegou o microfone de um grupo de crentes que orava na Praça Sete e começou, com voz embargada, trêmula e altissonante, para delírio dos circundantes: ‘Era por aquele tempo em que Jesus andava pela Galiléia. Certo dia na estrada de Cafarnaum, o divino mestre pregava as suas sapientíssimas palavras, mas, ao fundo, o cego Jeremias tangia o seu mavioso instrumento…‘ Até eu fiquei de queixo caído com aquele colega! E Felipe continuou. ‘… O Mestre dos Mestres, Rei dos Reis, Senhor de Toda Honra e Toda Glória pregava, o povo, atento, ouvia, mas Jeremias não parava de tanger o seu instrumento, até que o Mestre disse: – Vá Jeremias, vá! Vá tocar mal assim na puta que te pariu!‘ Imagine a carreira que demos…”

O livro é arrematado com uma lista contendo 1127 apelidos de conterrâneos e contemporâneos de Minas Novas. Aí mais uma ligação minha com o autor. Ele lembra que entre os apelidos dados aos “Carlos” estão listados “Carrin” e “Carrinho”. Era assim que a minha avó materna me chamava. Eu detestava esse apelido e, igualmente, detestava ser chamado de “Neném”, como eu era conhecido na casa das avós paternas. Findou que o “Neném” ficou até hoje. Na casa da minha mãe, quando estou presente e chega alguma visita, há uma certa dificuldade em falarem meu nome. Já me conformei.

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Belo Horizonte Carlos Mota Diamantina Minas Novas Teófilo Otoni 

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