13 de novembro de 2021

A canoa de um pau só

Por José Carlos Sá

Canoa de garapuvu. Uma das fotos que faz parte do Calendário do Campeche 2022 (Foto Mara Freire)

Está acontecendo hoje (13/11) em um shopping de Florianópolis* o lançamento do Calendário do Campeche edição 2022, em que o tema único são as canoas feitas de garapuvu.  Os registros são dos fotógrafos Mara Freire e Ronaldo Andrade, e o calendário estará à venda na Letraria Livros, no Multi Open Shopping.

O garapuvu propriamente dito (Foto Eugênio Arantes de Melo/Árvores do Brasil)

O garapuvu (Schizolobium parahyba) é uma árvore típica da Mata Atlântica e foi escolhida como símbolo da capital catarinense. Por lei não pode ser derrubado sem autorização dos órgãos ambientais. Atualmente só podem ser aproveitadas as árvores que caírem devido a algum acidente natural, como ventos ou raios.

Os enfeites foram acrescentados às embarcações que os índios Carijó já confeccionavam a centenas de anos (Foto Mara Freire)

A madeira é utilizada, principalmente, para a confecção de canoas. Para isso o tronco da árvore é escavado usando dois tipos de ferramentas: o enxó e a machadinha. A tecnologia foi desenvolvida pelos índios Carijó, que faziam a cavidade usando pedras e pedaços de pau enrijecidos pelo fogo. Os açorianos trazidos pela Coroa Portuguesa para o sul do Brasil aprenderam a técnica, pois muitos deles tiveram que aprender a ser pescadores artesanais, já que de onde vieram tinham a agricultura como principal atividade e aqui nem todos receberam terras próprias para o cultivo e tiveram que se adaptar aos novos ares, sem trocadilho.

A pescaria artesanal ainda é amplamente praticada em comunidades tradicionais da ilha (Foto Ronaldo Andrade)

Os açorianos não só aprenderam a fazer canoas de um pau só, como aperfeiçoaram a embarcação colocando enfeites,  reforços, bordas mais altas para enfrentar o mar encrespado, de forma que elas podiam ser conduzidas por remos ou por velas. Os batelões de garapuvu foram muito usados para pescaria, como também como meio de transporte de passageiros – inclusive entre a Ilha de Santa Catarina e o continente antes da ponte Hercílio Luz- e cargas como legumes, verduras, olarias levadas para o Mercado Público no centro de Florianópolis.

Com quantos paus se faz uma canoa?

Agora eu sei a resposta certa desta pergunta retórica que eu ouvia muito quando era menino. Naquela época eu aprontava muito e aprontar não é a palavra adequada para sintetizar o tanto de coisas que eu fazia e colocava a casa de cabeça para baixo.

Quando ia chegando a hora dos meus pais retornarem do serviço, as duas empregadas – a babá da minha irmã e a cozinheira – iam para a esquina esperá-los para fazer minha ‘caveira’, contando em detalhes o que eu tinha feito errado durante o dia.

Às vezes o relatório oral era tamanho, que eles entravam em casa ainda faltando itens para serem expostos e eu já me escondia na minha cama, coberto até a cabeça, mas dava para ouvir meu pai falando: “Neném vai ver com quantos paus se faz uma canoa” e eu pensava que sabia a resposta: Era peia!

* Lembrei dos coleguinhas de Porto Velho que assim se referiam ao Porto Velho Shopping, primeiro e único shopping da cidade até hoje. Em Florianópolis também usam o “em um shopping da cidade”, o que complica por que são cinco shoppings na ilha, mais dois em São José e um em Palhoça.

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Carijós Garapuvu Mata Atlântica 

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