29 de julho de 2021

Em busca de Bom Jesus da Paciência

Por José Carlos Sá

Escultura de Bom Jesus da Paciência, atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (Fotógrafo desconhecido)

Em um dos capítulos do livro Escravidão, volume II, “Áfricas Brasileiras”, Laurentino Gomes descreve as muitas influências culturais trazidas para o Brasil pelos milhares de africanos escravizados durante mais de quatro séculos, com destaque na música, dança, crenças, alimentação, arquitetura, escultura, mineração e outras inúmeras atividades.

Um outro aspecto destacado pelo autor é com relação aos laços de solidariedade entre os escravizados, que, nos locais de origem, não tinham contato entre si e foram se encontrar acorrentados em um porto de embarque, em um navio negreiro ou no local de trabalho – seja uma fazenda, engenho ou mineração. Naturalmente estes novos laços de amizade e solidariedade podiam perdurar por muito tempo.

No entanto, com a passagem do tempo, os africanos trazidos para o Brasil (o livro trata essencialmente do escravismo em nosso país) foram se organizando em irmandades religiosas segregacionistas. Exemplos: os ourives se organizaram sob a proteção de São Brás no Mosteiro dos Beneditinos, no Rio de Janeiro; os pardos se uniram na Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte onde aceitavam “homens e mulheres brancas” e não se admitiam negros; já a Irmandade de Nossa Senhora da Lampadosa, composta majoritariamente por negros, explica Laurentino, admitia irmãos de “qualquer qualidade”, mas não aceitava brancos ou pardos em cargos de direção. Em Salvador não era diferente. Os escravizados, foros ou libertos se reuniam em irmandades religiosas de acordo com suas origens africanas. Além das cerimônias em dias consagrados, os irmãos ajudavam na compra de alforrias, nos funerais e nas pensões para as viúvas e órfãos.

Foi nesse capítulo que encontrei a irmandade que seria ideal para mim. Ela foi criada entre 1719 e 1783 por mulatos na Igreja de São Pedro, em Salvador, sob a proteção do Bom Jesus da Paciência! Desde que li esse capítulo, pesquisei e encontrei a igreja. Agora aguardo a oportunidade para ir lá fazer um pedido especial: Que o Nosso Senhor me dê paciência, pois nasci sem essa virtude.

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Aleijadinho Escravidão Laurentino Gomes Rio de Janeiro Salvador 

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