02 de novembro de 2020

Superstição

Por José Carlos Sá

(Ilustra Internet)

Quando era aluno do Curso de Formação de Cabos fiz parte do treinamento na Base Aérea do Galeão, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Nós concorríamos à escala de serviço em vários postos do quartel. O meu favorito era o que ficava na frente da Baía da Guanabara, que era limitado pelo muro, por uns hangares abandonados (que pertenciam ao antigo Aeroporto do Galeão), a casa do ministro e o Portão das Armas.

Eu trocava com os colegas o turno em que ficaria de sentinela, para estar lá entre as quatro horas da madrugada e as seis horas da manhã. Gostava de ver os pescadores saindo para trabalhar e, depois, o sol nascendo e a cidade se iluminando lentamente.

Ficava neste idílio – muitas vezes nem via a chegada do ronda (sargento que vai verificar se a sentinela estava no posto) – olhando para o mar, para a cidade que amanhecia… Mas um dia tudo acabou.

Me contaram que, quando o aeroporto funcionava na pista antiga, uma aeromoça havia se suicidado em um daqueles hangares. Foi então que passei a negociar para ir para outros postos, os piores, como um que ficava na cabeceira da pista e você ficava zonzo com o barulho dos aviões decolando ou no paiol, que seria o primeiro lugar a ser atacado no caso de invasão do quartel.

Se não conseguia trocar, eu me “costurava” na divisão do meu posto com o Portão das Armas, onde havia gente 24 horas. Uma vez o ronda disse: “Você não pode ficar parado aí, tem que caminhar pra lá e pra cá”. Respondi que tinha feito isso momento antes dele chegar. Mentira.