13 de outubro de 2015

Já fui criança, quem diria?

Por José Carlos Sá

Participei, a convite do Lúcio Albuquerque, de um projeto do jornal Alto Madeira, onde cinco jornalistas escreveram sobre suas infâncias, respondendo à pergunta “Como era ser criança quando você era criança?”. Participaram a Quétila Ruiz, Montezuma Cruz, Matias Mendes, o próprio Lúcio e eu

O meu texto foi este, devidamente ilustrado com uma foto minha aos sete anos, ao lado do soldado da PM-MG Jaime, que me ensinou a ler.

Como era ser criança quando eu era criança

Aos 7 anos. Armado e perigoso

Aos 7 anos. Armado e perigoso

Já se vão quase 55 anos, pois nas minhas lembranças mais antigas eu tinha cinco anos. Morava com a família em Teófilo Otoni, cidade do nordeste mineiro, quase na divisa com a Bahia. Filho de ferroviários, meus pais me levavam e buscavam todos os dias para a casa dos avós paternos. Eram avós mesmo, pois eram três irmãs que criaram meu pai e, depois, foi a minha vez. Cresci entre adultos. Meus dois irmãos, mais novos que eu, ficavam sob os cuidados de uma babá. Considerado “levado”, eu ficava separado.

Lembro que os meus brinquedos eu mesmo fazia – com exceção de um velocípede “Bandeirantes”, que ganhei do meu padrinho – com caixas de fósforo, pedrinhas, além das medidas que vinham nos vidros de xarope. Brincava sozinho de trenzinho. De guerra e corrida de carros eu imaginava como era, pois não tinha televisão e eu via fotos nas revistas.

Tive carrinhos de madeira, cujas rodas eram tampinhas de garrafas ou fatias de rolha de cortiça. As rodas também eram feitas de rodelas de sola de chinelo, tendo como eixo um pedaço de arame. Fiz barcos com latas de sardinha, depois de algum adulto rebater as farpas com um martelo. Já brinquei de “telefone”, usando latas de extrato de tomate e barbante, mas não achava graça.

Quando comecei a estudar e a me socializar, aprendi outras brincadeiras coletivas como “queimada”, “rouba bandeira” e futebol, quando minha mãe nos levava à casa de algumas amigas dela. Fora isso não íamos para a rua. Empinar papagaio, jogar bolinha de gude, jogar pião, muito raramente.

Se eu não brincava com outros meninos da minha idade, tive a compensação na oportunidade de ler de tudo. Uma das minhas ‘vós’ foi professora e colocou os livros que tinha à minha disposição (alguns foram censurados, como “As amantes do Imperador”, no caso D. Pedro I). Coloria revistinhas e recortava figuras, estragando revistas “Seleções” de alguém antes que fossem lidas.

Nesta época, com 8 ou 9 anos, ganhamos uma coleção dos livros infantis do Monteiro Lobato e me mudei para o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Segui a turma do sítio nas aventuras e passei, desde então, a me interessar pela literatura brasileira, pela história, pela mitologia grega, entre outros assuntos. Prestava atenção em assuntos que os adultos discutiam, como futebol, política e religião, e que hoje também gosto de dar palpites. Menos em futebol.

Olhando desta distância no tempo, vejo que a minha infância foi diferente de outras pessoas da minha idade. Nem melhor, nem pior. Só diferente.

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Alto Madeira Lúcio Albuquerque Monteiro Lobato PM-MG Teófilo Otoni 

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