11 de setembro de 2026

Rádios em rota de colisão

Por José Carlos Sá

A relação com o rádio era de paixão e fúria (Imagem criada pelo assistente Iago Copilot/Edição Gemini Generated e JCarlos)

Hoje vi o trailer de um documentário sobre um programa radiofônico chamado PRK-30, que foi sucesso de audiência no Brasil entre 1944 e 1964.

Não sei se cheguei a ouvir esse programa específico, mas minha infância é cheia de recordações ligadas ao rádio: programas ouvidos em casa ou na casa das avós paternas, meu fascínio por alguns modelos de aparelhos e o “mistério” de ouvir vozes vindas não-sei-de-onde, saindo daquelas caixas de madeira envernizada.

Lembrei de um antigo aparelho da casa da minha avó, do tamanho da tela do meu computador atual. Ele tinha uma espécie de lente e, por trás, aparecia uma luz verde quando a sintonia estava correta. Chamavam de “olho mágico”. Eu, menino, achava que era parecido com aqueles olhos mágicos instalados nas portas para ver quem está chamando. A marca era Philips, mas eu lia “pilips”: a professora havia ensinado que a letra “h” não tinha som de nada, então era “pilips” mesmo, uai — e não adiantava me corrigirem.

Conheci os rádios na fase de transição das válvulas (procurem aí no Google, não vou explicar) para o sistema de transístor (idem).

Mudando de assunto, mas ainda no mesmo tema: hoje também estreou aqui em casa um radinho novo. Gosto de ouvir música quando estou lendo no quarto. Antes eu comprava rádios a pilha, mas agora a tecnologia permite recarregá-los na tomada, o que torna meu prazer mais duradouro e barato.

A rotatividade de rádios comigo é mais por eu ser estabanado do que por qualquer outro motivo. Vou pegar alguma coisa na mesa de cabeceira, esbarro e o rádio espatifa no chão. Como a fabricação é ordinária, geralmente a queda de pouco mais de um metro é fatal. Vou e compro outro.

Essa rotatividade radiofônica vem da minha meninice. Meu pai era ouvinte assíduo, preferencialmente dos programas esportivos da Rádio Globo, do Rio de Janeiro, captada em Teófilo Otoni com excelente qualidade.

Nas noites de quarta-feira, as resenhas esportivas já falavam dos jogos do fim de semana. Quando o Vasco da Gama — time do meu pai — ia jogar, ele não perdia nenhuma informação. As notícias eram munição para as conversas na barbearia ou na banca de jornais, onde comprava o Jornal dos Sports.

Com toda a preparação teórica, meu pai se instalava ao lado do rádio com uma garrafa térmica com café, dois maços de cigarro e, às vezes, uma travessa de bolo que minha mãe fazia especialmente para essas ocasiões.

Se o time ganhava, tudo bem, era só alegria. Mas se perdia em alguma circunstância “inexplicável”, o destino do aparelho estava selado: voava contra a parede mais distante, acompanhado por uma imprecação repetida como oração de exéquias:

“Não escuto essa desgraça mais!”

Nunca soube se ele não ouviria mais rádio ou se não acompanharia mais o Vasco. Até porque, na quarta-feira seguinte, lá estava ele com um rádio novo, sintonizado na resenha que falava do próximo jogo do Vasco.

[Crônica CCV/2026]

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Jornal dos Sports José Carlos de Sá Philips PRK-30 Rádio Globo Teófilo Otoni Vasco da Gama 

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