
É preciso carregar um ovo sob a axila esquerda por 40 dias (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Quando era criança, ouvi com a maior atenção a história de pessoas que possuíam um capetinha — uma espécie de “gênio do Aladim” — que fazia tudo o que o mestre mandava. Logo imaginei ter um desses para fazer os deveres de casa determinados pela professora, tarefa que eu precisava concluir antes de ser liberado para brincar. O desejo de consumo foi logo abandonado quando, no final da história, soube que o preço da dedicação do diabinho seria a minha alma, quando eu morresse.
Tanto minha avó paterna quanto meu pai contavam o passo a passo para conseguir domar um capetinha e colocá-lo a serviço de quem não se importava com o que viria depois da própria morte. Eu não lembrava dos detalhes e recorri à minha irmã Cida (Fátima Aparecida), que hoje é o nosso repositório da memória da família.
Diziam que, para conseguir um diabinho-escravo, era preciso encontrar o primeiro ovo de uma galinha preta ou o ovo de galo — uma raridade, mas que existe. O ovo de galo é pequeno, do tamanho de um ovo de pomba juriti.
De posse do ovo, esperava-se chegar à época da quaresma. Então, o interessado deveria colocá-lo sob a axila esquerda, amarrando o ovo com um pano, para fixá-lo bem perto da pele. A pessoa sofreria quarenta dias de febre alta, e o calor do corpo faria o ovo chocar. Ao final do período, o capetinha nasceria, com cerca de um palmo de altura, e deveria ser guardado em uma garrafa de vidro escuro, longe das vistas de curiosos.
O diabinho cumpriria tudo o que seu dono mandasse, dando-lhe riqueza e prosperidade. Nas histórias que eu ouvia quando criança, os contadores citavam um comerciante de Teófilo Otoni cuja loja nunca tinha fregueses, mas o homem sempre tinha dinheiro. Segundo as más línguas, ele possuía um desses escravos diabólicos.
Em uma pesquisa rápida, descobri que essa história é muito conhecida em algumas regiões de Minas Gerais e do Centro-Oeste brasileiro, onde o diabinho é chamado de “Familiá” (será que vem de “familiar”?) ou “capeta na garrafa”. Lembrei dela ao ouvir um comentário sobre uma rede de lojas que, apesar de estarem sempre vazias, se expande por todo lado.
Será que os proprietários têm capeta na garrafa?
[Crônica CCII/2026]
