02 de junho de 2026

Ser beradero é um estilo de vida — A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

O livro reúne poetas que cantam o beradão (Reprodução)

Morei em Rondônia por 34 anos, sou casado com uma porto‑velhense há quase 20, e só no mês passado descobri mais uma palavra do portovelhês: “cega”. No dialeto do beradão, significa mentira, enrolação, cilada ou enganação. Você escolhe.

Aliás — já contei isso várias vezes e repito — conheci a Marcela quando elogiei, no blog, um texto dela sobre o jeito de falar em Porto Velho. Ela agradeceu e estamos juntos até hoje.

Antes da resenha, vale explicar o que é “beradero”, “beradão” e suas derivações.

O norte de Porto Velho, capital de Rondônia, é cortado de oeste a leste pelo rio Madeira, de águas barrentas que carregam troncos derrubados nas cheias — daí o nome. A população ribeirinha ganhou o apelido de beradero, por muito tempo usado de forma depreciativa: “Ele é béra”. O adjetivo carregava os estereótipos de preguiça, malandragem, caboclismo e pobreza.

Mas a cultura beradera começou a ser resgatada nos anos 1980, em festivais de poesia, música e festas regionais e religiosas nas comunidades do baixo Madeira e na própria Porto Velho.

A antologia poética Beradeiragem, organizada por Naylane Araújo Matos e Samuel Pessoa da Silva (Editora Ifro, Porto Velho, 2025), é prova disso. A capa, assinada pelo amigo artista plástico e professor Flávio Dutka, mostra um beradero conduzindo sua canoa num igapó. Dutka, paranaense, é professor no Baixo Madeira e bebeu direto da fonte da cultura beradera — um beradero honorário.

O livro, em formato digital, reúne vinte autores com textos que remetem à vida de quem habita as margens barrentas do Madeira e seus afluentes. Ser beradero é mais que condição social: é estilo de vida.

A miscelânea de culturas — dos povos originários Mura, passando pelos africanos escravizados e pelo colonizador português — formou o caboclo amazônida: pescador, coletor, vivendo o presente sem estresse, como todos deveríamos viver.

Entre os bons trabalhos da antologia, destaco a “Declaração Universal dos Direitos Humanos Beiradeiros”, do artista Béra Aklias. Reproduzo apenas os caputs:

  • Art. 1. Todo Beradeiro e toda Beradeira têm direito de tomar açaí — de preferência com farinha d’água.
  • Art. 2. Direito à água de rio — de ir prum banho e lavar a alma.
  • Art. 3. Direito à cultura e à arte.
  • Art. 4. Direito de comer peixe (assado, frito ou cozido).
  • Art. 5. Direito à banana frita (e de dar uma banana pra quem quer acabar com sua vida).
  • Art. 6. Direito ao tucumã (e de dar tucumanzada em conversa atravessada).
  • Art. 7. Direito ao bodó com café. Direito ao chibé da fé.
  • Art. 8. Direito à hora da merenda (pra que nenhum curumim nem cunhã passem fome).
  • Art. 9. Direito ao pensamento tribal (nosso quintal é global, mas eu sou regional).
  • Art. 10. Direito à memória, justiça, liberdade, livros e escola.
  • TEJE DECLARADO!

Sensacional.

Recomendo a leitura da antologia: um mergulho nas águas do Madeira de onde ninguém sai incólume. O link para o livro, abaixo.

[Resenha XIII/2026]

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