Morei em Rondônia por 34 anos, sou casado com uma porto‑velhense há quase 20, e só no mês passado descobri mais uma palavra do portovelhês: “cega”. No dialeto do beradão, significa mentira, enrolação, cilada ou enganação. Você escolhe.
Aliás — já contei isso várias vezes e repito — conheci a Marcela quando elogiei, no blog, um texto dela sobre o jeito de falar em Porto Velho. Ela agradeceu e estamos juntos até hoje.
Antes da resenha, vale explicar o que é “beradero”, “beradão” e suas derivações.
O norte de Porto Velho, capital de Rondônia, é cortado de oeste a leste pelo rio Madeira, de águas barrentas que carregam troncos derrubados nas cheias — daí o nome. A população ribeirinha ganhou o apelido de beradero, por muito tempo usado de forma depreciativa: “Ele é béra”. O adjetivo carregava os estereótipos de preguiça, malandragem, caboclismo e pobreza.
Mas a cultura beradera começou a ser resgatada nos anos 1980, em festivais de poesia, música e festas regionais e religiosas nas comunidades do baixo Madeira e na própria Porto Velho.
A antologia poética Beradeiragem, organizada por Naylane Araújo Matos e Samuel Pessoa da Silva (Editora Ifro, Porto Velho, 2025), é prova disso. A capa, assinada pelo amigo artista plástico e professor Flávio Dutka, mostra um beradero conduzindo sua canoa num igapó. Dutka, paranaense, é professor no Baixo Madeira e bebeu direto da fonte da cultura beradera — um beradero honorário.
O livro, em formato digital, reúne vinte autores com textos que remetem à vida de quem habita as margens barrentas do Madeira e seus afluentes. Ser beradero é mais que condição social: é estilo de vida.
A miscelânea de culturas — dos povos originários Mura, passando pelos africanos escravizados e pelo colonizador português — formou o caboclo amazônida: pescador, coletor, vivendo o presente sem estresse, como todos deveríamos viver.
Entre os bons trabalhos da antologia, destaco a “Declaração Universal dos Direitos Humanos Beiradeiros”, do artista Béra Aklias. Reproduzo apenas os caputs:
- Art. 1. Todo Beradeiro e toda Beradeira têm direito de tomar açaí — de preferência com farinha d’água.
- Art. 2. Direito à água de rio — de ir prum banho e lavar a alma.
- Art. 3. Direito à cultura e à arte.
- Art. 4. Direito de comer peixe (assado, frito ou cozido).
- Art. 5. Direito à banana frita (e de dar uma banana pra quem quer acabar com sua vida).
- Art. 6. Direito ao tucumã (e de dar tucumanzada em conversa atravessada).
- Art. 7. Direito ao bodó com café. Direito ao chibé da fé.
- Art. 8. Direito à hora da merenda (pra que nenhum curumim nem cunhã passem fome).
- Art. 9. Direito ao pensamento tribal (nosso quintal é global, mas eu sou regional).
- Art. 10. Direito à memória, justiça, liberdade, livros e escola.
- TEJE DECLARADO!
Sensacional.
Recomendo a leitura da antologia: um mergulho nas águas do Madeira de onde ninguém sai incólume. O link para o livro, abaixo.
[Resenha XIII/2026]

