26 de maio de 2026

Anestesiando borboletas

Por José Carlos Sá

Caçando borboletas sem anestesia (Imagem criada pelo assistente IAgo Coilot/Prompt e montagem BN JCarlos)

Uma das criações de Deus que mais admiro são as borboletas. São seres frágeis, com um ciclo de vida que conhecemos desde a infância, chamada de metamorfose e que, para mim, continua representando uma das maravilhas da natureza: os ovos, a lagarta (larva), a construção do casulo, a crisálida (pupa) e a borboleta.

Como tarefa de casa já tentei observar essa evolução, mas nunca estive por perto quando a borboleta saía da “casca”. Eu chegava ao meu laboratório de observação e o casulo já estava vazio. Foi pela televisão que vi, na Natural Geographic, a borboleta desdobrando e movimentando as asas e depois sair voando. Repito: uma maravilha.

Uma ocasião resolvi colecionar borboletas. Inspirado nos equipamentos dos caçadores profissionais de borboletas que via na televisão, improvisei uma rede usando um saco plástico seguro por um arame na ponta de um cabo de vassoura. Corria atrás das coitadas que pousassem nas flores do quintal da minha avó. Quando conseguia capturar alguma, a bichinha ficava com as asas escangalhadas ao se debater na armadilha e não servia para compor a coleção.

Às vezes, surpreendia alguma borboleta pousada em uma folha (botando ovos, possivelmente) e a pegava com as pontas dos dedos, que eram lavados com bastante água e sabão , pois diziam que o “pó da asa das borboletas provoca cegueira, se dedos sujos tocarem os olhos”.

Capturei alguns indivíduos, que preguei com alfinetes em uma folha de cartolina, mas antes de conseguir mostrar para alguém, as formigas acabaram com a insipiente coleção.

Essa enxurrada de recordações ligadas às borboletas foram provocadas por uma matéria que li no portal português ZAP AEIOU, que publicou um artigo original do Journal of Zoo and Wildlife Medicine, editado nos Estados Unidos, sobre “a melhor forma de anestesiar uma borboleta”.

Eu soube que há quatro métodos para sedar os bichinhos e permitir que os pesquisadores possam realizar “exames físicos, imagiologia, recolha de amostras ou reparação das asas. E, em casos raros, para facilitar a eutanásia de um animal que está a sofrer”.

Foi aí que a consciência pesou.

E se depois de tudo que contei acima, das minhas caçadas, experiências e colecionismo, quando eu morrer e chegar ao céu e Deus for uma borboleta multicor? Estarei lascado. Não quero nem pensar.

[Crônica CVIII/2026]

Tags

Borboletas Journal of Zoo and Wildlife Medicine Leptóptero National Geographic Zap Aeiou 

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