
Eu sentia um frio quando a navalha roçava minha garganta (Imagem gerada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
A confusão começou na madrugada de domingo, no bar perto do posto de gasolina da esquina. Quem me contou foi o Chico Bóia, frentista. Lá pelas quatro da manhã, já cheio de goró, Pedrinho Bico Doce começou a fazer fiu-fiu para a companheira de um sujeito que bebia na outra mesa.
Do fiu-fiu, passou aos gestos, chamando a mulher para se juntar a ele. O cara não gostou e os dois iniciaram uma briga de longe, cada um disparando palavrões de sua mesa. O pessoal do bar interveio, acalmou os ânimos e colocou todo mundo para fora, já eram cinco da manhã e precisavam fechar.
Ao sair, o sujeito — Altino, como depois soube — disse a Pedrinho que aquilo não ficaria assim, que conversariam mais tarde. Bico Doce respondeu que estaria esperando.
Por volta das oito horas, Altino voltou acompanhado de outro homem. Mal chegaram em frente à casa de Pedrinho, antes mesmo de baterem palmas, o dono da casa saiu atirando. Altino levou um tiro no peito e caiu. O parceiro correu pela rua, mas Pedro foi atrás, disparando até acertar-lhe as costas. O homem tombou. O atirador pegou o carro e desapareceu.
Chamaram SAMU e polícia, mas não havia mais nada a fazer. Era serviço para o rabecão.
E o dia seguiu. Curiosos passavam, olhavam o local do crime, alguns faziam o sinal da cruz. Pouco depois das oito, dois homens tocaram a campainha da casa de Pedrinho.
Orival, enteado de Pedrinho, chegava do trabalho. Vigilante de escola, ainda vestia a farda.. Ao abrir o portão, os visitantes sacaram armas e, sem dizer palavra, dispararam quarenta tiros contra o rapaz.
Ninguém viu nada. As poucas câmeras da rua não registraram os assassinos. Isso foi há seis meses. Ontem, finalmente, os dois vingadores foram localizados e presos.
Pistoleiros confessos, donos de um currículo de mortes espalhadas por cidades vizinhas. E, ironia cruel, eram eles os barbeiros do bairro. Sim, os mesmos onde eu e tanta gente cortamos o cabelo e fazemos a barba.
Conto isso arrepiado: na terça-feira estive lá. Um deles fez minha barba. A lâmina deslizou pela pele, fria, cortando apenas os pelos. Mas eu sentia um frio na espinha, sem saber a razão, que cada movimento era um fio de perigo roçando minha garganta…
[Crônica CVI/2026 – Inspirada em fatos ocorridos na cidade de Tijucas – SC]
