
Conversas de barbeiro que viram crônicas (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Desde que me aposentei, tenho passado mais tempo em casa e participado, de propósito, de poucas atividades externas. Compareço a um ou outro evento cultural ou religioso, além dos compromissos semanais que ajudam a evitar um curto-circuito no psicológico.
A cada quinze dias vou à barbearia para dar um retoque nos cabelos e na barba, mantendo ambos num comprimento que considero razoável. É nessas visitas quinzenais que fico sabendo de causos recentes ou antigos, sempre bons para inspirar crônicas.
Meu pai também era frequentador assíduo de uma barbearia em Teófilo Otoni, onde mantinha o corte de cabelo em dia. A barba, porém, fazia religiosamente às seis da manhã em casa, com a toalha de rosto pendurada no pescoço.
Na primeira barbearia que frequentei, quando nos mudamos para São José há sete anos, encontrei um homem — mineiro como eu — que havia morado em Rondônia (igual a mim) antes de vir para cá. Ali também ouvi o desabafo de outro freguês, preocupado com o futuro da ex-esposa. Ele soubera que a mulher havia arranjado um namorado pela internet e iria visitá-lo no Paraná para ver se “dava química” entre os dois. O homem estava arrasado.
Um dia, JP chegou em casa e contou à Marcela que tinha cortado o cabelo numa barbearia que acreditava que eu gostaria de conhecer:
— Lá tem um monte de velhos que não param de falar. O Zé Carlo gosta de conversar, acho que vai gostar.
Aceitei a sugestão do seu João e fui conhecer a tal barbearia dos “velhos que não param de falar”. Logo percebi que ele exagerara: até hoje não coincidiu de eu encontrar mais de um cliente no mesmo horário.
Mas uma coisa não posso negar: assunto nunca falta. Durante os vinte ou trinta minutos em que vou deixando cabelos e pelos para trás, sempre há conversa.
Já aprendi sobre os primórdios do bairro, sobre moradores antigos e sobre aqueles que foram homenageados com nomes de ruas. Também ouvi dissertações inflamadas sobre o erro de engenharia cometido pelo prefeito ao construir a nova avenida na margem do rio Maruim (Avenida Beira-Rio). “Quando vier a próxima cheia, isso aqui vai ficar debaixo d’água!”, garantiu o barbeiro, agitando o pente e a tesoura.
Vou ouvindo os causos e anotando mentalmente, para usar algum deles como inspiração nas minhas crônicas e contos. Nos próximos dias, pretendo contar algumas dessas histórias de barbearia.
Enquanto isso, seguimos falando de tempo, de futebol, de política ou do assunto que estiver passando na tevê, que o barbeiro mantém sempre sintonizada na Record News.
[Crônica CV/2026]
