A necessidade obrigou Pedrinho a trabalhar cedo.
Aos dez anos, a mãe o levou pela mão até a fábrica de sorvetes do seu Quintino e pediu um emprego para o menino. Só com a lavação de roupas, não conseguia sustentar os quatro filhos.
“Por causa da idade dele, só dá para ser vendedor ambulante de picolés, no sistema de consignação”, explicou Quintino, detalhando: “Ele ganha pelo que vender. O que sobrar, devolve para mim.”
Sem demora, Pedrinho começou ali mesmo. Recebeu uma caixa de isopor e saiu para a rua, levando junto as recomendações da mãe — cuidado ao atravessar, atenção com estranhos, e tudo o mais que as mães sempre dizem.
Desembaraçado, logo pegou as manhas da atividade e foi “promovido”: deixou a caixa de isopor e passou a trabalhar com um carrinho, que permitia levar mais picolés e faturar melhor.
A mãe, orgulhosa, via o filho contribuir de forma importante nas despesas da casa.
Mas, no segundo mês, algo mudou. O dinheiro entregue por Pedrinho começou a diminuir. Primeiro, ela pensou que fosse apenas reflexo de dias ruins de venda. Porém, os valores foram caindo até que, certa noite, o menino voltou de mãos abanando.
Cabisbaixo, dizia que o seu Quintino não lhe dera nada.
No terceiro dia consecutivo sem trazer um trocado, a mãe o levou novamente pela mão para tirar satisfação.
Quintino ouviu com calma e respondeu sem rodeios:
— Eu só desconto os picolés que ele chupa. Daqui a pouco, é ele quem vai me pagar.
A revelação caiu como um choque. Depois de aplicar uma surra memorável no menino, a mãe decidiu procurar outro emprego para Pedrinho — um em que não houvesse a tentação de comer o próprio trabalho.
[Crônica CI/2026]

