Concluí a leitura deste livro com um gosto amargo. Em pouco mais de 150 páginas, o autor mostra como duas revoltas que poderiam ter dado ao Brasil um novo rumo — não sei se melhor ou pior — acabaram consumidas em uma fogueira de vaidades, para usar um clichê já bem gasto.
O título Militares e civis num governo sem rumo — O Governo Provisório revolucionário no sul do Brasil — 1893-1894 (Editora Lunardelli, Florianópolis, 1990) já sugere que algo não funcionou. No período em que o Sul do Brasil se viu independente do restante do país, duas revoltas de origens e propósitos distintos se uniram para contestar o governo de Floriano Peixoto. Mas a união foi frágil.
O professor Carlos Humberto Corrêa, apoiado sobretudo em jornais da época, reconstrói os bastidores da Revolução Federalista, iniciada no Rio Grande do Sul contra Júlio de Castilhos, e sua inesperada conexão com a Revolta da Armada em Desterro, capital de Santa Catarina. O encontro não foi planejado: aconteceu, e os dois lados tentaram se ajudar, cada qual perseguindo seus próprios objetivos.

O capitão Frederico Guilherme de Lorena assumiu sozinho o Governo Revolucionário e provocou ciúmes (Reprodução da internet)
Logo no início, a instalação do “Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil” deveria ser conduzida por uma junta com representantes gaúchos e da Armada. No entanto, foi assumida de forma isolada pelo capitão Frederico Guilherme de Lorena, militar revoltoso sem qualquer traquejo político — especialmente no contexto catarinense e gaúcho. Lorena entrou em choque com lideranças locais e até com seu chefe, o almirante Custódio de Mello.
Os equívocos e disputas internas minaram a coesão revolucionária, abrindo espaço para a reação implacável do governo central de Floriano Peixoto, que reagiu e exterminou os revoltosos. Usei a palavra “exterminar” de propósito: os revoltosos foram fuzilados, enforcados ou degolados, sobretudo em Santa Catarina e no Paraná. Até hoje, em terras catarinenses, permanecem vivas as lembranças dos mortos na ilha de Anhatomirim e da mudança do nome da capital, de Nossa Senhora do Desterro para Florianópolis.
O ponto de vista do autor me surpreendeu. Já havia lido sobre a Revolução Federalista por outros ângulos: o relato de um médico e poeta que assistia à invasão das tropas de Moreira César da janela de casa; os testemunhos das mulheres — esposas, mães, filhas — envolvidas nos dois lados da luta; ou ainda a visão dos padres que tomaram partido. Corrêa acrescenta uma nova camada a esse mosaico.
Recomendo a leitura, mesmo sabendo que será difícil encontrar o livro.
SERVIÇO:
O quê: Militares e civis num governo sem rumo – O Governo Provisório revolucionário no sul do Brasil – 1893-1894
Autor: Carlos Humberto Corrêa
Editora: Lunardelli – Florianópolis
Ano: 1990
[Resenha IX/2026]


