19 de outubro de 2025

O dia em que um post virou inquérito – Banzeiros 20 anos

Por José Carlos Sá

Um post que virou inquérito (Reprodução)

Desde sempre — muito antes de pensar em ser jornalista — implico com algumas coisas. Burocracia é uma delas. A outra: gente que trabalha atendendo o público com má vontade. Quando essas duas se juntam, meu dia fica cinzento. O mau humor aflora e fico indócil.

Já passei por muitas situações em que funcionários públicos criam dificuldades para vender facilidades. A maioria delas em escritórios do Detran de Rondônia e Santa Catarina. Por isso, preferia pagar a um despachante — assim, só teria raiva uma vez. Mas a Marcela me fez mudar de hábitos.

Ela dizia que eu mesmo devia ir lá e desembaraçar os meus problemas. E nesses 20 anos de Banzeiros — para definir um lapso temporal (eu era doido para usar essa expressão) — elogiei os funcionários do Detran “apenas” duas vezes, por ter sido bem atendido e resolvido o que fui buscar.

Minha primeira contenda com o Detran foi pelos anos 1990, ao renovar a CNH. Como estava de férias, passei por lá e pedi instruções sobre os documentos necessários. A funcionária explicou, e eu anotei na agenda, na frente dela. No dia seguinte, voltei com toda a papelada. Era a mesma pessoa. Sorri e disse: — Quero dar entrada na renovação da minha carteira de motorista.

Ela perguntou: — O senhor trouxe o formulário preenchido e com a firma reconhecida em cartório?

Soltei um “uai” bem mineiro: — A senhora não falou desse formulário ontem, quando perguntei o que era preciso — e mostrei o que tinha anotado.

Ela respondeu que, sem o tal formulário preenchido e com firma reconhecida, não podia dar entrada no pedido. Tentei argumentar, não teve jeito. Perguntei se conhecia algum despachante. Apontou um homem numa mesinha de bar, com uma máquina de escrever, num canto do estacionamento. Fui até ele, paguei os honorários e taxas legais, e resolvi o assunto — sem firma reconhecida nem nada.

Deu punição

O bombeiro de plantão não estava em um bom dia (Imagem gerada por IA Bing.Com/GPT-4o)

Outro caso foi em 2010. Fui fazer a vistoria do Celta da Marcela para vendê-lo. Passei por muitos percalços, que narrei em um post sobre a completa falta de empatia dos funcionários com quem tive o desprazer de lidar.

Meses depois, recebo uma ligação no telefone da empresa onde trabalhava. Reproduzo o diálogo como me lembro:

— Bom dia, Zé Carlos. Aqui é o coronel Fulano, dos Bombeiros. Estou presidindo uma comissão de inquérito para apurar a denúncia que você fez sobre um bombeiro militar. — Bom dia, coronel (nós já nos conhecíamos). Prazer falar com o senhor. Mas eu não fiz nenhuma denúncia… — Recebemos uma carta do Ministério Público com o facsímile da publicação “Banzeiros”, do dia 19 de março de 2010. Não foi o senhor que escreveu?

Pedi um momento, acessei o blog e lembrei da situação.

— Coronel, fui eu que escrevi contando aquele aborrecimento no Detran, mas não fiz nenhuma denúncia ao Ministério Público… — O assunto chegou lá e tenho que apurar a identidade do bombeiro que estava de serviço  naquele dia. Você se lembra do nome dele? — Não, coronel. Só lembro que era um cabo. — Havia outro bombeiro com ele? — Não, senhor. Estava sozinho. — O fato aconteceu como o senhor narrou? — Exatamente. Ele não levantou a cabeça nem para responder meu bom dia. Olhou o extintor que apresentei e carimbou o papel sem levantar a cabeça ou abrir a boca. Desculpe perguntar, mas o que vai acontecer com ele? Já estou arrependido de ter feito o comentário. — Negativo. O bombeiro é funcionário público e temos o dever de atender todo cidadão com educação e cortesia.

Não tive notícias sobre o desfecho. Acredito que o bombeiro tenha sido, no mínimo, advertido. Também creio que o Ministério Público tenha solicitado esclarecimentos ao Detran sobre as distorções no atendimento. Se houve, ninguém me procurou para confirmar ou desmentir minhas observações.

Banzeiros também presta serviço — mesmo quando não pretende.

[Crônica CCXXIX/2025]

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Bombeiros Burocracia Detran Funcionários públicos Marcela Ximenes Rondônia Santa Catarina 

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